A gastrite que não passa raramente é culpa apenas do café ou de um jantar mais pesado. Na maior parte dos casos crônicos, os verdadeiros responsáveis são a infecção pela bactéria Helicobacter pylori e o uso frequente de anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenaco e ácido acetilsalicílico, que agridem diretamente a mucosa do estômago. Reconhecer essas causas ajuda a entender por que tantas pessoas seguem com queimação, dor e má digestão mesmo depois de mudar a alimentação.
Por que a gastrite persiste mesmo com dieta ajustada?
A mucosa gástrica é protegida por uma camada de muco e bicarbonato que a defende do ácido clorídrico produzido durante a digestão. Quando essa barreira é comprometida, surgem a inflamação e a dor característica da gastrite, mesmo em pessoas que já cortaram café, frituras e álcool da rotina.
Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia, cerca de 90% das gastrites crônicas estão relacionadas à infecção pelo H. pylori ou ao uso frequente de anti-inflamatórios. Isso explica por que apenas ajustar o cardápio, sem investigar a causa, costuma trazer alívio parcial e temporário dos sintomas.
Como o Helicobacter pylori agride o estômago?
O H. pylori é uma bactéria em formato espiral que consegue sobreviver no ambiente ácido do estômago graças a uma enzima chamada urease, que neutraliza parte do ácido ao seu redor. Ao se instalar na mucosa gástrica, ela provoca inflamação persistente e enfraquece a barreira protetora natural do órgão.
A infecção costuma ser adquirida ainda na infância, por água ou alimentos contaminados, e pode permanecer silenciosa por anos. Quando não tratada, pode evoluir para úlcera péptica, gastrite atrófica e, em casos mais graves, aumentar o risco de câncer gástrico, o que reforça a importância de investigar a presença da H pylori diante de sintomas persistentes.

O que dizem os estudos sobre a prevalência da infecção?
A dimensão global do problema ajuda a entender por que a bactéria é considerada uma das principais causas de gastrite crônica no mundo. Segundo a revisão sistemática e meta-análise Global Prevalence of Helicobacter pylori Infection Systematic Review and Meta-Analysis, publicada na revista Gastroenterology e indexada no PubMed, cerca de 4,4 bilhões de pessoas estavam infectadas pela bactéria em 2015, o que representa mais da metade da população mundial.
Os autores destacaram grande variação entre regiões, com prevalência mais alta em países da África e da América Latina e mais baixa em nações da Europa e da Oceania. O achado reforça que a infecção é subdiagnosticada em muitos lugares e justifica a investigação laboratorial diante de sintomas gástricos que não melhoram.
Como os anti-inflamatórios danificam a barreira gástrica
Os anti-inflamatórios não esteroides, conhecidos como AINEs, atuam bloqueando enzimas chamadas ciclooxigenases, que participam do processo inflamatório mas também são responsáveis por produzir substâncias protetoras da mucosa gástrica. Ao inibir essas enzimas, o remédio reduz a inflamação, mas fragiliza o estômago no mesmo processo. Os principais fatores de risco associados ao uso frequente desses medicamentos são:
- Uso contínuo por mais de duas semanas, mesmo em doses consideradas baixas.
- Automedicação com ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno ou ácido acetilsalicílico, comum em dores de cabeça, cólicas e dores musculares.
- Combinação com álcool ou corticoides, que multiplica o risco de úlcera e sangramento.
- Idade acima de 60 anos, quando a mucosa gástrica já é naturalmente mais frágil.
- Presença simultânea de H. pylori, situação em que a agressão química se soma à inflamação bacteriana.

Por que a endoscopia com pesquisa da bactéria é essencial?
Quando os sintomas de gastrite persistem por mais de algumas semanas, a Federação Brasileira de Gastroenterologia recomenda a investigação com endoscopia digestiva alta, que permite visualizar diretamente a mucosa e coletar pequenas amostras para análise. Esse exame é considerado o padrão para diagnosticar gastrite, úlcera e outras alterações do estômago.
Durante o procedimento, o médico realiza o teste da urease e a biópsia, que confirmam ou descartam a presença do H. pylori. A partir do resultado, é possível definir se o tratamento vai combinar antibióticos, protetores gástricos e ajuste dos remédios para gastrite, ou apenas mudanças no estilo de vida.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação de um médico ou outro profissional de saúde qualificado. Diante de sintomas persistentes no estômago, procure um gastroenterologista para investigação e tratamento adequados.









