Muita gente sai do laboratório aliviada ao ver as enzimas do fígado, ALT e AST, dentro dos valores de referência, acreditando que o órgão está totalmente saudável. Só que esse resultado, isolado, não descarta a presença de gordura no fígado, condição conhecida como esteatose hepática. Estudos mostram que boa parte dos pacientes com gordura acumulada e até com inflamação hepática mantém as enzimas normais no sangue, o que faz do diagnóstico um processo mais amplo, dependente de histórico clínico, fatores metabólicos e exames de imagem. Entender essa limitação ajuda a evitar falsa sensação de segurança e a investigar o problema no momento certo.
Por que as enzimas do fígado podem parecer normais?
ALT e AST são enzimas liberadas na corrente sanguínea quando há lesão nas células do fígado. No entanto, o acúmulo de gordura pode ocorrer sem provocar dano celular suficiente para elevar esses marcadores, especialmente nas fases iniciais da esteatose.
Por isso, exames de rotina com resultados dentro da referência não significam automaticamente ausência de esteatose. É comum encontrar gordura hepática em pessoas com transaminases normais durante ultrassonografias feitas por outros motivos.
Como o diagnóstico da esteatose realmente é feito?
A confirmação depende de um conjunto de informações. O médico avalia histórico clínico, peso, medidas abdominais, presença de diabetes, colesterol alto e hipertensão, além de solicitar exames complementares como ultrassom, elastografia hepática ou ressonância magnética.
Esses exames de imagem detectam o acúmulo de gordura mesmo com enzimas normais e ajudam a estimar o grau da esteatose hepática, orientando o tratamento correto.

O que um estudo científico mostra sobre esse cenário?
Pesquisas recentes reforçam por que confiar apenas nas enzimas é arriscado. Segundo o estudo Characterization of Patients with Biopsy-Proven Non-Alcoholic Fatty Liver Disease and Normal Aminotransferase Levels, uma pesquisa clínica publicada na revista Digestive Diseases and Sciences, cerca de 20% dos pacientes com esteatose confirmada por biópsia apresentavam ALT e AST dentro da normalidade.
Os autores destacam ainda que esse grupo tinha perfil metabólico grave e taxa de fibrose avançada semelhante à dos pacientes com enzimas alteradas, reforçando que exames normais não afastam o problema nem indicam segurança quanto à progressão da doença.
Quais fatores metabólicos aumentam o risco?
A esteatose está fortemente ligada a alterações metabólicas que podem passar despercebidas. Reconhecer o próprio perfil de risco ajuda a decidir a hora de investigar o fígado, mesmo com transaminases normais. Entre os principais fatores estão:
- Obesidade, especialmente o acúmulo de gordura abdominal
- Diabetes tipo 2 ou resistência à insulina
- Colesterol e triglicerídeos elevados
- Hipertensão arterial
- Síndrome metabólica com múltiplos fatores associados
- Sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados
- Consumo excessivo de bebidas alcoólicas
- Histórico familiar de doença hepática gordurosa
Nessas situações, mesmo sem sintomas ou alterações nas enzimas, vale conversar com o médico sobre a possibilidade de solicitar exames de imagem para avaliar o fígado.

Quais atitudes ajudam a proteger o fígado?
Mudanças no estilo de vida são a principal estratégia para prevenir e reverter a gordura no fígado, especialmente nos estágios iniciais. Adote as seguintes medidas:
- Buscar perda de peso gradual entre 5% e 10% do peso corporal, quando indicado
- Adotar uma alimentação no padrão mediterrâneo, com vegetais, azeite e peixes
- Reduzir açúcar adicionado, refrigerantes e frutose industrializada
- Limitar carboidratos refinados, como pães brancos, biscoitos e massas
- Praticar exercícios físicos regulares por pelo menos 150 minutos semanais
- Evitar bebidas alcoólicas e manter o consumo dentro de limites orientados
- Controlar diabetes, colesterol e pressão arterial com acompanhamento médico
- Estar atento aos sintomas de esteatose hepática mesmo em fases iniciais
O acompanhamento periódico com clínico geral, gastroenterologista ou hepatologista é essencial, principalmente para quem tem fatores de risco metabólicos, mesmo que as enzimas do fígado estejam normais.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas persistentes, procure orientação médica.









