Quando as fissuras aparecem nos cantos da boca, causam ardência ao abrir os lábios e cicatrizam apenas para reaparecer poucos dias depois, o problema costuma ir além do simples ressecamento. Esse quadro tem nome clínico, a queilite angular, também chamada popularmente de boqueira, e envolve uma combinação de fatores como acúmulo de saliva, alterações mecânicas na boca e infecções locais por fungos ou bactérias. Entender essa origem múltipla é o que permite tratar a lesão de forma eficaz e reduzir a recorrência.
O que é a queilite angular?
A queilite angular é uma inflamação da pele nos ângulos dos lábios, ou seja, no ponto em que os cantos superior e inferior se encontram. Pode surgir em apenas um lado ou nos dois ao mesmo tempo, com aspecto avermelhado, fissurado e por vezes coberto por crostas.
As lesões costumam doer ao falar, comer ou abrir a boca com mais amplitude, e não se estendem para a mucosa interna. Diferente de uma ferida na boca comum, a queilite angular tende a se cronificar quando a causa não é identificada e corrigida.
Por que a umidade e a saliva favorecem o quadro?
A pele dos cantos da boca é fina e fica em contato constante com a saliva, especialmente em pessoas que dormem com a boca entreaberta, umedecem muito os lábios com a língua ou apresentam salivação aumentada. Esse contato prolongado macera a pele e rompe a barreira que protege a região.
Uma vez que essa barreira se abre, o ambiente úmido e morno favorece a proliferação de microrganismos que normalmente vivem na boca sem causar problemas, transformando um pequeno atrito em uma inflamação persistente.

Quais fatores locais e mecânicos podem estar por trás?
Muitas causas da queilite angular estão ligadas a alterações no formato ou no funcionamento da boca, e não a hábitos de hidratação. Reconhecer esses gatilhos ajuda a interromper o ciclo de recaídas.
Entre os fatores locais mais associados ao quadro estão:
- Uso de próteses dentárias mal adaptadas, que reduzem a altura entre o queixo e o nariz e criam dobras profundas nos cantos da boca.
- Perda parcial ou total dos dentes, com colapso da mordida e acúmulo de saliva nas comissuras.
- Aparelhos ortodônticos, especialmente em jovens, por dificultarem a higiene e irritarem a região.
- Colonização por fungos e bactérias, sobretudo Candida albicans e Staphylococcus aureus, que se aproveitam da pele macerada.
- Hábito de lamber os lábios, que perpetua o ciclo de umidade e ressecamento.
O que diz a ciência sobre as causas?
A queilite angular é objeto de estudo em dermatologia e odontologia justamente por reunir causas tão diversas. A revisão Angular cheilitis an oral disease with many facets, publicada em 2024 na revista científica Wiener Medizinische Wochenschrift, reforça que o quadro tem etiologia mista, com componentes bacterianos e fúngicos, e que a coinfecção por Candida e Staphylococcus aureus é frequente.
Os autores lembram ainda que a queilite angular pode ser um sinal de outras condições sistêmicas em investigação, como imunossupressão, diabetes e doenças inflamatórias intestinais, o que reforça a importância da avaliação profissional em vez do autotratamento com pomadas hidratantes.
Quando procurar ajuda profissional?
Um episódio pontual pode melhorar com hidratação simples e proteção da região. Já os quadros que voltam repetidas vezes ou não cedem em poucos dias exigem avaliação com dentista, dermatologista ou clínico, que investigará a origem exata da queilite e indicará antifúngicos, antibacterianos ou ajustes na prótese quando necessário.
Também é importante procurar orientação diante de sinais associados, como aftas frequentes, língua esbranquiçada, sangramento gengival ou ferida no canto da boca que persiste por semanas. Esses sintomas podem indicar infecções ou deficiências que precisam de investigação específica.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um médico ou profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas persistentes, procure orientação especializada.









