Aftas que reaparecem junto com diarreia, excesso de gases e barriga inchada podem ser uma pista de doença celíaca, especialmente quando o quadro também envolve anemia, perda de peso ou cansaço persistente. As feridas na boca são comuns e geralmente benignas, mas sua repetição associada a sintomas intestinais merece investigação, porque a doença pode afetar a absorção de nutrientes e produzir sinais fora do aparelho digestivo, mesmo quando o desconforto abdominal não é intenso. A atenção ao conjunto dos sinais ajuda a evitar que a alteração seja tratada apenas como um problema local da boca.
Por que aftas e sintomas intestinais podem estar ligados?
A doença celíaca é uma condição autoimune em que o contato com o glúten desencadeia inflamação no intestino delgado de pessoas geneticamente predispostas. O glúten está presente principalmente no trigo, na cevada e no centeio, além de produtos preparados com esses cereais.
Essa inflamação pode danificar as vilosidades intestinais, estruturas que ajudam a absorver ferro, ácido fólico, vitamina B12 e outros nutrientes. A combinação entre resposta imunológica e deficiências nutricionais pode favorecer aftas recorrentes, enquanto a má absorção contribui para diarreia, distensão abdominal, gases e fezes volumosas ou gordurosas. Em algumas pessoas, as alterações na boca surgem antes dos sintomas digestivos mais evidentes. A doença também pode se apresentar de forma não clássica, com anemia, perda de massa óssea, dor de cabeça ou alterações no esmalte dentário.
Estudo reforça a relação entre aftas e doença celíaca
Segundo o estudo Prevalence of oral manifestations in coeliac disease and associated factors, publicado na revista científica BMC Gastroenterology, as alterações na boca foram mais frequentes em adultos com doença celíaca do que em pessoas sem a condição.
O estudo revisado por pares avaliou 873 adultos com doença celíaca e 563 controles. Antes do diagnóstico, 56% dos pacientes relataram úlceras aftosas recorrentes, e muitos observaram melhora após a dieta sem glúten. Por ser um estudo observacional, ele aponta uma associação, mas não prova que toda afta seja causada pela doença. Ainda assim, sustenta a investigação quando as aftas frequentes aparecem com sintomas digestivos.

Quais sinais reforçam a necessidade de investigação?
A suspeita aumenta quando as aftas retornam várias vezes e fazem parte de um conjunto de alterações:
- Diarreia frequente ou persistente;
- Barriga inchada, gases e dor abdominal;
- Perda de peso sem explicação;
- Anemia por falta de ferro ou cansaço constante;
- Fezes claras, volumosas, gordurosas ou com odor intenso;
- Defeitos no esmalte dos dentes;
- Histórico familiar de doença celíaca;
- Baixo crescimento ou dificuldade para ganhar peso em crianças.
Quais exames podem ajudar no diagnóstico?
A investigação costuma combinar avaliação clínica, exames de sangue e, conforme o caso, endoscopia com biópsia do intestino delgado:
- Anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA;
- Dosagem de IgA total, para identificar deficiência dessa imunoglobulina;
- Anticorpos antiendomísio ou testes IgG em situações específicas;
- Hemograma, ferritina, ácido fólico e vitamina B12;
- Endoscopia digestiva alta com biópsias, quando indicada;
- Teste genético HLA-DQ2 e HLA-DQ8 em casos selecionados.

Por que não retirar o glúten antes dos exames?
Parar de comer glúten antes da investigação pode reduzir os anticorpos no sangue e permitir que a mucosa intestinal comece a se recuperar, produzindo resultados falsamente negativos. A melhora dos sintomas após cortar pães e massas também não confirma a doença, pois outras condições podem reagir a mudanças na alimentação. Por isso, a dieta para doença celíaca deve ser iniciada somente após orientação profissional e definição do diagnóstico.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação médica. A presença de aftas recorrentes com diarreia, barriga inchada, anemia ou perda de peso deve ser avaliada por um gastroenterologista ou clínico geral. Quem já retirou o glúten deve informar isso ao profissional e não voltar a consumi-lo por conta própria sem orientação.









