O stent revolucionou o tratamento das artérias coronárias obstruídas, mas deixa uma estrutura metálica permanente dentro do vaso e não elimina completamente a possibilidade de um novo estreitamento naquele local. Agora, pesquisadores brasileiros, em parceria com uma equipe italiana, estão avaliando uma estratégia diferente para determinadas artérias calcificadas: usar ondas para modificar o cálcio e, depois, um balão que entrega medicamento à parede do vaso, sem deixar um novo implante permanente.
Por que uma artéria pode voltar a estreitar depois de um stent?
Na angioplastia convencional, o stent funciona como uma pequena estrutura que sustenta a parede da artéria e mantém espaço para a passagem do sangue. Nos modelos metálicos utilizados atualmente, ele permanece no local após o procedimento. Os stents farmacológicos ainda liberam medicamentos que diminuem a proliferação de tecido e reduziram bastante o problema da reestenose.
Mesmo assim, um novo estreitamento pode ocorrer. A chamada reestenose está relacionada, entre outros mecanismos, à resposta de cicatrização do vaso e ao crescimento de tecido na área tratada. Por isso, pessoas submetidas à angioplastia com stent precisam manter acompanhamento e seguir corretamente o tratamento prescrito.
O que a nova estratégia faz de diferente?
A abordagem que vem sendo estudada no Brasil é voltada a lesões calcificadas em vasos coronários pequenos e combina duas tecnologias. Primeiro, utiliza-se a litotripsia intravascular. Um cateter com balão leva pulsos de energia até a área endurecida pelo cálcio, produzindo pequenas fraturas nessa estrutura e tornando a artéria mais fácil de dilatar.
Depois dessa preparação, entra o balão farmacológico. Ele é inflado temporariamente no segmento tratado e transfere um medicamento antiproliferativo para a parede da artéria. A intenção é limitar a proliferação de tecido durante a cicatrização e, assim, diminuir a possibilidade de o vaso voltar a estreitar, sem precisar deixar uma nova malha metálica naquele ponto.

Se o balão é retirado, o medicamento continua agindo?
Sim. Diferentemente do stent farmacológico, que permanece implantado e libera medicamento ao longo do tempo, o balão fica em contato com a parede da artéria apenas durante o procedimento. O revestimento é desenvolvido para transferir o fármaco ao tecido vascular durante esse período de insuflação.
Esse conceito já é utilizado em algumas situações da cardiologia intervencionista, inclusive no tratamento de reestenose dentro de stents. A estratégia brasileira em estudo busca ampliar essa lógica para artérias pequenas e muito calcificadas, combinando o medicamento com a preparação prévia do vaso pela litotripsia.
O que já se sabe sobre a pesquisa feita no Brasil?
O estudo internacional registrado no ClinicalTrials.gov sob o código NCT05625997 foi planejado para avaliar a combinação de litotripsia intravascular e balão farmacológico em 50 pacientes com lesões calcificadas de pequenos vasos coronários. Entre os centros participantes estão o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e a Universidade de Verona, na Itália.
Resultados preliminares apresentados em 2026 no congresso EuroPCR indicaram que foi possível realizar a estratégia planejada sem stent em grande parte dos pacientes selecionados. Esses achados são iniciais e não significam que o método já tenha demonstrado superioridade ao stent nem que possa ser utilizado em qualquer obstrução coronariana. Estudos maiores e acompanhamento mais prolongado ainda são necessários para esclarecer sua segurança e durabilidade.

Isso significa que os stents podem deixar de ser usados?
Não. Os stents continuam sendo fundamentais no tratamento de muitas obstruções coronarianas e podem ser indispensáveis em situações como infarto ou quando o resultado obtido apenas com o balão não é adequado. A possibilidade de tratar algumas lesões sem deixar uma estrutura permanente representa uma alternativa para casos selecionados, e não uma substituição geral da angioplastia com stent.
A escolha depende do tamanho e da localização do vaso, quantidade e distribuição do cálcio, características da obstrução e resposta da artéria durante o procedimento. Mesmo quando a estratégia sem stent é planejada, o cardiologista intervencionista pode precisar implantar um stent caso o vaso não permaneça adequadamente aberto.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação médica. Pessoas com doença coronariana ou que já receberam um stent devem manter o acompanhamento com o cardiologista e nunca interromper medicamentos antiplaquetários ou outros tratamentos sem orientação profissional.








