Praticar exercícios regularmente traz diversos benefícios à saúde, mas isso não significa que alguns meses de treino necessariamente melhorem todos os aspectos da cognição. Em um ensaio clínico com adultos de meia-idade pouco ativos, um programa de exercícios durante três meses não produziu melhora significativa no principal teste de memória avaliado. Por outro lado, os participantes apresentaram redução dos sintomas depressivos e mudanças experimentais relacionadas à biologia de células do hipocampo.
O que aconteceu com a memória após 3 meses de exercício?
O ensaio clínico randomizado Effects of a three-month exercise programme on cognition, mood and neurogenesis: the NeuroFit randomised controlled trial, publicado em setembro de 2026 na npj Aging, acompanhou 52 adultos saudáveis de 45 a 65 anos que praticavam menos de 90 minutos de atividade física por semana.
Parte dos participantes realizou durante 12 semanas um programa estruturado de exercícios com sessões ao vivo e orientação de instrutores, enquanto o grupo controle manteve sua rotina habitual. O principal desfecho era a chamada separação de padrões, capacidade ligada ao hipocampo que ajuda o cérebro a distinguir experiências e memórias semelhantes. Nesse teste, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Outros testes cognitivos também não mostraram melhora clara
A ausência de efeito não ficou restrita ao teste principal. Os pesquisadores também não encontraram diferenças significativas entre exercício e controle em medidas de memória de reconhecimento ou na avaliação cognitiva global feita pelo MoCA. Isso não significa que a atividade física não seja importante para o cérebro, mas mostra que seus efeitos dependem do desfecho, da população estudada, do tipo de treino e do tempo de intervenção.
Os próprios autores destacam que adaptações cognitivas duradouras podem exigir períodos mais longos de exercício. Estudos anteriores utilizados na discussão do ensaio encontraram mudanças em volume do hipocampo e memória após intervenções de seis a 12 meses, enquanto programas mais curtos podem produzir resultados mais limitados em adultos cognitivamente saudáveis.

O que melhorou durante o programa?
Embora o principal resultado de memória tenha sido negativo, algumas mudanças apareceram ao longo das 12 semanas.
- Sintomas depressivos diminuíram no grupo de exercício em comparação ao controle, segundo a escala PHQ-9.
- O nível de atividade física aumentou, mostrando que os participantes conseguiram aderir ao programa proposto.
- Outras medidas de bem-estar, incluindo qualidade do sono e componentes de qualidade de vida, não apresentaram diferenças significativas após os ajustes estatísticos.
- Marcadores sanguíneos e clínicos avaliados no estudo também não mostraram mudanças significativas de forma geral.
- Um experimento com células do hipocampo identificou alteração na proliferação celular quando essas células foram expostas ao soro coletado dos participantes após o programa.
Esse último achado não significa que o exercício tenha demonstrado produzir novos neurônios no cérebro dos participantes. A experiência foi realizada em laboratório e indica apenas que mudanças no sangue após o exercício podem influenciar o comportamento de células precursoras do hipocampo em condições experimentais. Já a melhora dos sintomas depressivos reforça a relação conhecida entre exercício e saúde mental.
Para quem pretende começar a se movimentar, atividades realizadas de maneira regular e adaptadas ao condicionamento físico são uma forma prática de inserir exercícios na rotina.
O estudo muda o que sabemos sobre exercício e cérebro?
Os resultados não anulam pesquisas anteriores sobre atividade física e saúde cerebral. Eles ajudam, porém, a evitar a interpretação de que qualquer programa de exercícios produz rapidamente melhora mensurável em memória e outras funções cognitivas.
- Três meses de exercício não melhoraram significativamente o principal teste de memória neste grupo.
- A ausência de efeito em um teste específico não significa ausência de outros benefícios do exercício.
- A melhora dos sintomas depressivos ocorreu antes de surgir um benefício cognitivo mensurável.
- Os resultados foram obtidos em apenas 52 adultos saudáveis e pouco ativos, o que limita a generalização para outras populações.
- Intervenções mais longas ainda precisam ser estudadas para saber se produzem mudanças cognitivas que três meses não conseguiram detectar.
Assim, fazer exercício continua sendo uma estratégia importante para a saúde física e mental, mas não deve ser encarado como garantia de melhora rápida da memória. Quem percebe esquecimentos persistentes, piora progressiva da memória, mudanças importantes de humor ou sintomas depressivos deve procurar avaliação médica para investigar possíveis causas e receber orientação individualizada.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica profissional.








