O diabetes tipo 2 não afeta apenas a glicose no sangue, os rins, os olhos e o coração. Pesquisas também relacionam a doença a alterações na memória, atenção e velocidade de raciocínio ao longo dos anos. Uma revisão sistemática mostrou que pessoas com diabetes podem apresentar até cerca de 50% mais declínio em determinadas medidas cognitivas do que aquelas sem a doença. A relação envolve resistência à insulina, glicose elevada, alterações vasculares e outros fatores metabólicos que também atingem o cérebro.
Por que o diabetes tipo 2 pode afetar o cérebro?
A insulina participa não apenas do controle da glicose, mas também de processos importantes para o funcionamento cerebral. Na resistência à insulina, característica central do diabetes tipo 2, diferentes tecidos passam a responder pior a esse hormônio, e alterações relacionadas à sinalização da insulina também podem ocorrer no sistema nervoso.
Além disso, anos de glicose elevada podem favorecer inflamação, estresse oxidativo e lesões nos pequenos vasos sanguíneos. Uma revisão publicada na The Lancet Diabetes & Endocrinology destaca o dano vascular como um dos mecanismos importantes que relacionam diabetes, declínio cognitivo e demência.
Quanto o diabetes aumenta o risco de declínio cognitivo?
As estimativas variam conforme idade, duração do diabetes, método utilizado para avaliar a cognição e outras condições de saúde. Revisões de estudos prospectivos encontraram pior evolução cognitiva em pessoas com diabetes e aumento do risco de demência, embora isso não signifique que todas desenvolverão perda de memória ou doença de Alzheimer.
Segundo a revisão Cognitive decline and dementia in diabetes systematic overview of prospective observational studies, publicada na revista Diabetologia, pessoas com diabetes apresentaram uma mudança de 1,2 a 1,5 vez maior ao longo do tempo em diferentes medidas da função cognitiva. O estudo corrobora a associação entre diabetes e envelhecimento cognitivo mais desfavorável, mas não permite prever individualmente quem terá demência.

Quais fatores podem aumentar ainda mais o risco?
A Sociedade Brasileira de Diabetes destaca que o risco cognitivo resulta da combinação de alterações metabólicas e vasculares, e não apenas do diagnóstico de diabetes. Entre os fatores que merecem atenção estão:
- glicose elevada de forma persistente e hemoglobina glicada acima da meta individual;
- episódios recorrentes ou graves de hipoglicemia;
- longa duração do diabetes;
- pressão alta e alterações do colesterol;
- sedentarismo e obesidade;
- histórico de acidente vascular cerebral;
- presença de outras complicações vasculares do diabetes.
O que ajuda a proteger a saúde do cérebro?
O objetivo é manter o diabetes bem controlado sem provocar episódios frequentes de glicose muito baixa. Algumas medidas também ajudam a proteger os vasos sanguíneos e reduzir fatores relacionados ao declínio cognitivo:
- acompanhar regularmente a glicemia e a hemoglobina glicada;
- seguir corretamente o tratamento prescrito para o diabetes tipo 2;
- praticar atividade física regularmente;
- manter uma alimentação equilibrada e rica em alimentos pouco processados;
- controlar pressão arterial e colesterol;
- evitar tabagismo;
- reduzir episódios de hipoglicemia, principalmente em idosos.
Veja também orientações do Tua Saúde sobre alimentação para quem tem diabetes e cuidados que ajudam no controle da doença.
Controlar a glicose pode diminuir o risco de demência?
Manter o controle glicêmico dentro de metas individualizadas está associado a melhores resultados ao longo do tempo. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 destaca glicemia elevada, hipoglicemias graves e grande variabilidade glicêmica entre os fatores relacionados ao comprometimento cognitivo. Estudos também mostram maior risco de demência quando a hemoglobina glicada permanece muito elevada durante anos.
Isso não significa, porém, que reduzir a glicose ao máximo previna demência. Um controle excessivamente rigoroso pode aumentar o risco de hipoglicemia, especialmente em idosos. As metas devem considerar idade, medicamentos, outras doenças e capacidade de autocuidado. Quem apresenta esquecimentos persistentes, dificuldade para organizar tarefas ou alterações no controle do diabetes deve buscar orientação médica profissional para avaliação individualizada.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por médico ou outro profissional de saúde qualificado.








