Alguns medicamentos usados no dia a dia, muitos deles vendidos sem receita, podem elevar a pressão arterial de forma silenciosa e passar despercebidos até em pessoas sem histórico de hipertensão. A Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Anvisa alertam que anti-inflamatórios, descongestionantes nasais, corticoides, alguns antidepressivos e contraceptivos hormonais estão entre os grupos que mais interferem no controle pressórico e merecem atenção antes do uso prolongado.
Por que alguns medicamentos elevam a pressão arterial?
Cada classe de medicamento age em um mecanismo diferente: alguns causam retenção de sódio e água, outros contraem os vasos sanguíneos e outros ainda estimulam o sistema nervoso simpático. O resultado prático é o mesmo, um aumento da pressão nas artérias.
Esse efeito pode ser leve em pessoas saudáveis, mas costuma ser mais expressivo em quem já convive com pressão alta, doença renal ou insuficiência cardíaca, situações em que o organismo tem menos reserva para compensar a mudança.
Quais medicamentos comuns podem elevar a pressão?
A lista abaixo reúne as classes mais associadas ao aumento pressórico em consultas de cardiologia, com base em orientações da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Anvisa:
- Anti-inflamatórios não esteroides: ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida e cetoprofeno reduzem a ação de anti-hipertensivos e favorecem retenção de líquidos
- Descongestionantes nasais orais: pseudoefedrina e fenilefrina, presentes em antigripais, contraem vasos e podem subir a pressão em poucas horas
- Corticoides sistêmicos: prednisona e dexametasona em uso prolongado retêm sódio e aumentam o volume sanguíneo
- Antidepressivos: venlafaxina, duloxetina e inibidores da MAO podem elevar a pressão de forma dose-dependente
- Contraceptivos hormonais combinados: pílulas com estrogênio podem aumentar discretamente a pressão em mulheres suscetíveis
Vale lembrar que outros grupos, como imunossupressores, terapias hormonais e alguns suplementos com cafeína ou efedrina, também podem interferir.

Como uma revisão sistemática confirma esse efeito?
A evidência sobre anti-inflamatórios é uma das mais consistentes na literatura. Segundo a revisão sistemática Systematic review of trials of the effect of continued use of oral non-selective NSAIDs on blood pressure and hypertension, publicada no periódico britânico Current Medical Research and Opinion, o uso continuado de ibuprofeno elevou a pressão sistólica em cerca de 3,5 mmHg e quase triplicou o risco de desenvolver hipertensão em comparação ao placebo.
Os autores analisaram 32 ensaios clínicos randomizados e concluíram que, mesmo aumentos modestos na pressão, quando sustentados por semanas, podem interferir no controle de quem já usa anti-inflamatórios ou toma remédios para hipertensão.
Quais sinais indicam que a pressão pode estar subindo?
Na maioria das vezes, o aumento da pressão é silencioso e só aparece na medição de rotina. Ainda assim, alguns sinais podem levantar suspeita e merecem atenção, especialmente quando surgem após início de um medicamento novo.
Dor de cabeça persistente na nuca, tontura, visão embaçada, palpitações, inchaço nos tornozelos e sangramentos nasais frequentes estão entre as manifestações relatadas em consultas. Descongestionantes com fenilefrina costumam causar sintomas mais rápidos, em algumas horas de uso.

O que fazer ao suspeitar de aumento da pressão pelo remédio?
A recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia é clara: nunca interromper um medicamento por conta própria. A suspensão abrupta de antidepressivos, corticoides ou anti-hipertensivos pode causar efeito rebote e complicações mais graves do que o próprio aumento da pressão. Algumas condutas seguras incluem:
- Medir a pressão em casa por vários dias, em horários diferentes, e anotar os valores
- Levar essa lista à consulta médica, junto com os nomes de todos os remédios em uso
- Evitar automedicação com anti-inflamatórios e antigripais, principalmente por mais de 3 a 5 dias
- Comunicar ao médico o uso de suplementos, chás e fitoterápicos, que também podem interferir
- Prefirir alternativas seguras quando possível, como paracetamol para dor leve ou lavagem nasal com soro fisiológico
- Manter hábitos que reduzem a pressão, como redução de sal, atividade física e sono adequado
- Reavaliar contraceptivos e antidepressivos com o médico se houver histórico familiar de hipertensão
Ajustes de dose ou troca de classe medicamentosa costumam resolver o problema sem interromper o tratamento da condição original.
As informações deste artigo têm caráter apenas informativo e educativo, e não substituem a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um médico. Nunca inicie, altere ou suspenda medicamentos por conta própria e consulte sempre um profissional de saúde de sua confiança antes de qualquer mudança na sua terapia.









