Em 2019, no Reino Unido, um adolescente chegou aos 17 anos com perda de visão após manter, desde o ensino fundamental, uma dieta composta principalmente por batata frita de pacote, chips tipo Pringles, pão branco, presunto processado e salsichas. A publicação sobre o adolescente britânico registrou neuropatia óptica nutricional, deficiência de vitamina B12 e outras carências, apesar de ele ter peso e estatura considerados normais.
A deficiência de vitamina B12 apareceu cedo
Aos 14 anos, o adolescente procurou atendimento por cansaço. Os exames detectaram deficiência de vitamina B12 e macrocitose, alteração na qual as células vermelhas do sangue ficam maiores do que o esperado. O índice de massa corporal e a estatura estavam dentro dos padrões habituais. Depois desse atendimento, surgiram perda auditiva e sintomas visuais progressivos.
Um corpo com peso normal também pode apresentar deficiência nutricional. O índice de massa corporal não mede vitaminas, minerais, qualidade da alimentação ou reservas do organismo. Em pessoas com transtorno alimentar restritivo, a variedade muito pequena de alimentos pode sustentar a ingestão de calorias, mas deixar de fornecer nutrientes necessários aos nervos, ao sangue e aos ossos.
A perda de visão definiu o diagnóstico
Aos 17 anos, a perda progressiva da visão levou o jovem a um serviço especializado. A avaliação identificou neuropatia óptica nutricional, múltiplas carências de micronutrientes e baixa densidade mineral óssea, medida relacionada à quantidade de minerais presentes nos ossos. Não foram encontrados sinais de inflamação nem uma causa genética para a lesão óptica.
A avaliação psiquiátrica concluiu que havia transtorno alimentar restritivo ou evitativo, condição também conhecida pela sigla ARFID. Nela, a pessoa limita intensamente a quantidade ou a variedade dos alimentos, sem que isso seja necessariamente motivado por preocupação com peso ou aparência. O diagnóstico depende da análise conjunta da alimentação, das repercussões clínicas e do comportamento alimentar.

Como a neuropatia óptica nutricional danifica o nervo?
O nervo óptico conduz até o cérebro os sinais captados pela retina. A falta prolongada de vitamina B12 e de outros micronutrientes pode prejudicar a produção de energia celular e a manutenção das fibras nervosas. Quando essas fibras deixam de funcionar adequadamente, a visão central, a percepção de cores e a nitidez podem se deteriorar aos poucos.
Uma série pediátrica publicada em 2024 descreveu neuropatia ligada a dietas seletivas, especialmente na presença de carência de vitamina B12. O trabalho incluiu crianças sem transtornos do neurodesenvolvimento. Esse achado ajuda a explicar o mecanismo da neuropatia óptica nutricional, mas não transforma a evolução de um único paciente em regra para todas as pessoas com alimentação seletiva.
Quais sinais de alerta podem acompanhar as carências?
A deficiência nutricional pode avançar antes de provocar mudanças visíveis no peso. Alterações na visão, no sangue, na audição e nos ossos merecem avaliação quando aparecem junto de uma dieta extremamente limitada. Entre os sinais clínicos que podem ocorrer estão:
- embaçamento ou redução da visão central;
- dificuldade crescente para distinguir cores ou detalhes;
- cansaço persistente associado a alterações no hemograma;
- alterações auditivas que surgem ou progridem;
- alimentação restrita a poucos produtos durante meses ou anos;
- dor óssea, fraturas ou evidência de baixa densidade mineral óssea.
Perda de visão tem diferentes causas e não indica, por si só, neuropatia por carência de nutrientes. A neurite óptica, por exemplo, envolve inflamação e exige investigação própria. Uma referência sobre os sinais de inflamação do nervo óptico ajuda a diferenciar os conceitos, sem substituir o exame oftalmológico.
Como tratar o transtorno alimentar restritivo e suas complicações?
O tratamento considera tanto as carências encontradas nos exames quanto o motivo da limitação alimentar. No adolescente britânico, foram indicadas suplementação vitamínica e orientação para melhorar a alimentação. A reposição de micronutrientes deve ser definida individualmente, pois depende dos resultados laboratoriais, dos sintomas e da capacidade de absorção de cada pessoa.
- avaliação clínica e exames para vitaminas, minerais e alterações sanguíneas;
- acompanhamento oftalmológico para medir acuidade, cores e campo visual;
- análise nutricional da variedade, frequência e quantidade dos alimentos;
- avaliação psiquiátrica ou psicológica do comportamento alimentar;
- estratégias graduais para ampliar o repertório alimentar;
- monitoramento da densidade mineral óssea quando houver indicação clínica.
O acompanhamento multidisciplinar pode reunir pediatria ou clínica, oftalmologia, nutrição e profissionais de atenção psicológica. Uma análise científica de 2024 sobre ARFID contextualizou a gravidade associada à ingestão restritiva. Identificar cedo o transtorno alimentar restritivo permite corrigir carências antes que determinadas lesões nervosas se tornem irreversíveis.
A evolução conhecida exige atenção precoce
Segundo a publicação de 2019, a suplementação vitamínica e a orientação alimentar foram iniciadas, mas a visão já perdida tornou-se permanente. Esse desfecho mostra uma complicação grave da neuropatia óptica nutricional, sem significar que toda deficiência de vitamina B12 ou alimentação seletiva produzirá a mesma evolução.
Uma redução visual progressiva, mudança na percepção das cores, perda auditiva ou cansaço persistente junto de uma dieta muito limitada justificam avaliação profissional. Exames oftalmológicos e laboratoriais ajudam a distinguir carência de micronutrientes, inflamação, alterações genéticas e outras causas de lesão do nervo óptico.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Se houver sintomas ou dúvidas sobre a alimentação, procure orientação médica. Evoluções individuais não representam o curso esperado para todas as pessoas.









