Sim, deixar o feijão de molho antes do cozimento pode reduzir a formação de gases, embora não elimine o problema por completo. A prática dissolve parte dos oligossacarídeos presentes no grão, principalmente rafinose, estaquiose e verbascose, que são fermentados pelas bactérias do intestino e produzem gases como resultado. A eficácia varia conforme o tempo de imersão, o descarte da água, a quantidade consumida e a sensibilidade individual. Entender esses limites ajuda a incluir o feijão na rotina sem desconforto exagerado nem expectativas equivocadas.
Por que o feijão causa gases no intestino?
O feijão contém oligossacarídeos que o corpo humano não digere completamente, porque falta a enzima alfa-galactosidase no intestino delgado. Esses açúcares seguem intactos até o intestino grosso, onde são fermentados pelas bactérias da microbiota.
Durante essa fermentação, formam-se gases como hidrogênio, dióxido de carbono e metano, responsáveis pelo inchaço, ruídos e desconforto abdominal. O processo é natural e não indica intolerância, mas pode variar bastante de pessoa para pessoa.
O que o demolho realmente modifica?
Como os oligossacarídeos são solúveis em água, deixar o feijão de molho por 8 a 12 horas permite que parte deles se dissolva no líquido e seja descartada junto com ele. O grão também absorve água, o que facilita o cozimento posterior.
Além dos oligossacarídeos, o demolho reduz fitatos e taninos, compostos que dificultam a absorção de minerais. Vale destacar que a água do molho deve ser descartada e o cozimento feito em água nova, para que o efeito realmente aconteça.

Como um estudo científico comprova o efeito do demolho?
A eficácia dessa prática já foi documentada em pesquisas brasileiras com o feijão-carioca. Segundo o estudo Soaking the common bean in a domestic preparation reduced the contents of raffinose-type oligosaccharides but did not interfere with nutritive value, publicado na revista científica Journal of Nutritional Science and Vitaminology por pesquisadores da Unicamp, o demolho seguido do descarte da água reduziu significativamente os oligossacarídeos causadores de flatulência.
Os autores observaram queda de 25% no teor de rafinose, 24,8% de estaquiose e 41,7% de verbascose quando o feijão foi deixado de molho e cozido em água nova, sem prejudicar o valor nutritivo do alimento. Ainda assim, parte considerável desses compostos permanece no grão, o que explica por que o desconforto pode persistir.
Quais outros fatores influenciam a formação de gases?
O demolho é apenas uma das variáveis envolvidas, e a resposta do organismo depende de vários outros aspectos individuais. Antes de atribuir o desconforto exclusivamente ao feijão, vale considerar alguns pontos.
- Tamanho da porção consumida em uma mesma refeição
- Combinação com outros alimentos que fermentam no intestino
- Velocidade da mastigação e quantidade de ar engolido
- Composição da microbiota intestinal, que varia entre pessoas
- Presença de condições como intestino irritável ou intolerâncias
- Frequência de consumo, já que a adaptação intestinal ocorre gradualmente
Por isso, pessoas com o mesmo preparo e a mesma porção podem apresentar respostas bem diferentes, o que reforça o caráter individual da tolerância.

Como preparar o feijão com segurança e minimizar o desconforto?
Um preparo cuidadoso combina a redução dos oligossacarídeos com medidas de higiene alimentar. Pequenos ajustes na rotina fazem diferença tanto no conforto digestivo quanto na segurança da preparação, especialmente em climas quentes.
- Escolher grãos íntegros, lavar bem em água corrente e descartar impurezas
- Deixar de molho por 8 a 12 horas em água fria, trocando a água a cada 4 ou 6 horas
- Guardar a vasilha na geladeira em dias quentes, para evitar fermentação indesejada
- Descartar a água do molho e cozinhar em água nova até que os grãos fiquem bem macios
- Incluir ervas como louro e cominho, que auxiliam no alívio dos gases intestinais
- Introduzir o feijão na dieta em porções progressivas para permitir adaptação
Se o desconforto abdominal for intenso, frequente ou vier acompanhado de dor, alterações no hábito intestinal ou perda de peso, o mais indicado é procurar um nutricionista ou gastroenterologista para avaliação individualizada, identificação da causa e definição do tratamento adequado.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado.









