A diminuição da capacidade de sentir cheiros, chamada hiposmia, costuma ser vista como um problema passageiro ligado a resfriados ou envelhecimento. No entanto, pesquisas em neurologia mostram que essa alteração pode surgir anos antes dos primeiros sintomas motores do Parkinson e cognitivos do Alzheimer, funcionando como um alerta precoce do sistema nervoso. Entender esse elo é essencial para valorizar sinais discretos e buscar avaliação médica no momento certo.
Por que o olfato é afetado tão cedo nessas doenças?
As áreas do cérebro responsáveis por processar cheiros, como o bulbo olfatório e o córtex piriforme, estão entre as primeiras a acumular proteínas anormais associadas ao Parkinson e ao Alzheimer. Esse processo silencioso pode começar décadas antes dos sintomas clássicos, prejudicando a capacidade de identificar odores.
Além disso, os neurônios responsáveis pela olfação são especialmente vulneráveis ao acúmulo de alfa-sinucleína e beta-amiloide, substâncias envolvidas nessas doenças neurodegenerativas. Por isso, a hiposmia é considerada um dos marcadores mais precoces do sistema nervoso, mesmo que não seja um diagnóstico por si só.
Como o Parkinson se relaciona com a hiposmia?
Estudos indicam que até 90% das pessoas com Parkinson apresentam alguma redução do olfato, muitas vezes anos antes dos tremores e da lentidão característicos. A perda olfatória costuma ser progressiva e passa despercebida por longos períodos.
Essa relação está ligada à degeneração inicial de neurônios em regiões do tronco encefálico e do bulbo olfatório, antes que a substância negra do cérebro seja afetada. Reconhecer alterações persistentes no olfato pode motivar a busca por avaliação neurológica, especialmente diante dos primeiros sinais da doença de Parkinson.

E qual é a ligação com o Alzheimer?
No Alzheimer, a hiposmia também aparece precocemente e reflete o comprometimento de áreas do lobo temporal, como o córtex entorrinal e o hipocampo, importantes tanto para a memória quanto para o processamento dos cheiros. Essa alteração pode surgir antes das falhas de memória mais evidentes.
Com o avanço da doença, a dificuldade de identificar odores familiares tende a piorar, acompanhando o declínio cognitivo. Por isso, mudanças persistentes no olfato em pessoas mais velhas devem ser observadas com atenção, especialmente quando somadas a esquecimentos frequentes, sinal comum na doença de Alzheimer.
Como um estudo científico reforça essa relação?
Uma ampla revisão analisou décadas de pesquisas sobre olfação e doenças neurodegenerativas, avaliando o valor da hiposmia como marcador clínico precoce. Segundo o estudo Olfaction as an early marker of Parkinson’s disease and Alzheimer’s disease, publicado no Handbook of Clinical Neurology e indexado no PubMed, a disfunção olfatória é um sinal comum e precoce dessas duas condições, correspondendo a processos patológicos que começam no sistema olfatório antes das manifestações clínicas típicas.
Os autores destacam que a avaliação do olfato é simples e de baixo custo, podendo ser útil como ferramenta de rastreamento em estudos de prevenção. Ainda assim, reforçam que a hiposmia isolada não confirma diagnóstico e deve ser analisada em conjunto com outros sinais clínicos.

Quando a perda de olfato deve levar à busca por avaliação médica?
Nem toda perda de olfato indica doença neurológica, já que muitas causas comuns podem estar envolvidas. Ainda assim, alguns cenários merecem atenção especial e avaliação médica:
- Hiposmia persistente, que dura semanas ou meses sem causa aparente.
- Idade acima de 60 anos, faixa em que doenças neurodegenerativas são mais prevalentes.
- Distorção dos cheiros, como perceber odores diferentes dos reais.
- Histórico familiar de Parkinson, Alzheimer ou outras demências.
- Sintomas associados, como tremores leves, alterações de sono ou esquecimentos frequentes.
- Perda progressiva, com piora gradual ao longo do tempo.
Nessas situações, o acompanhamento com neurologista e otorrinolaringologista permite investigar as causas com exames adequados e afastar outras condições, como sinusites crônicas, sequelas virais e efeitos de medicamentos, que também podem afetar o olfato.
Se você percebeu mudanças persistentes na sua capacidade de sentir cheiros, principalmente sem relação com resfriados ou alergias, procure orientação médica. Uma avaliação individualizada é fundamental para identificar a causa e planejar cuidados adequados.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado. Consulte sempre um médico diante de sintomas persistentes ou preocupações relacionadas à sua saúde neurológica.









