Colocar louro no feijão é um costume muito comum nas cozinhas brasileiras, principalmente para dar aroma e um sabor característico ao caldo. Também existe a crença de que a folha ajuda a evitar gases e facilita a digestão, mas esse efeito específico ainda não foi comprovado por estudos clínicos adequados. O que tem melhor respaldo científico é deixar o feijão de molho antes de cozinhar e descartar essa água, procedimento que reduz parte dos carboidratos associados à fermentação intestinal. Isso não significa abandonar o louro, mas entender o que cada etapa do preparo realmente oferece.
Por que o louro é colocado no feijão?
A principal função do louro é acrescentar aroma e sabor durante o cozimento. Suas folhas contêm compostos voláteis, como o 1,8-cineol e o linalol, responsáveis por parte do cheiro característico da planta. Quando aquecidos junto ao feijão, esses componentes ajudam a construir o aroma do caldo e podem deixar a preparação mais saborosa, mesmo sem grandes quantidades de outros temperos.
O louro é utilizado principalmente na forma de folhas secas e inteiras, que são colocadas na panela e retiradas antes de servir. Seu uso culinário é diferente do consumo de extratos concentrados ou suplementos, que podem apresentar doses muito maiores de determinadas substâncias. Na cozinha, a vantagem mais conhecida é sensorial: o tempero combina com feijão-carioca, feijão-preto, lentilha, sopas e ensopados, sem precisar ser tratado como um ingrediente medicinal.
O louro realmente ajuda a evitar os gases do feijão?
Não há evidência clínica suficiente para afirmar que adicionar folhas de louro ao feijão diminui a produção de gases em pessoas que consomem esse alimento. Embora o louro seja tradicionalmente associado à digestão e possua compostos bioativos estudados em laboratório, esses resultados não demonstram que uma ou duas folhas usadas durante o cozimento sejam capazes de reduzir a fermentação intestinal. O efeito culinário conhecido não deve ser confundido com um benefício digestivo comprovado.
A explicação para os gases está principalmente na composição do próprio feijão. Ele contém oligossacarídeos, como rafinose, estaquiose e verbascose, que não são completamente digeridos no intestino delgado. Ao chegarem ao intestino grosso, esses carboidratos são fermentados pelas bactérias intestinais, produzindo gases. Por isso, estratégias que modificam a quantidade desses compostos no alimento possuem uma justificativa mais direta do que simplesmente acrescentar uma erva aromática à panela.

O que realmente ajuda a reduzir os gases do feijão?
O remolho, também chamado de demolho, é uma das medidas mais estudadas para reduzir os oligossacarídeos presentes nos grãos. Uma pesquisa publicada no Journal of Nutritional Science and Vitaminology, em 2002, analisou o preparo doméstico do feijão-carioca e encontrou reduções de 25% na rafinose, 24,8% na estaquiose e 41,7% na verbascose quando os grãos foram deixados de molho e cozidos sem a água residual. O estudo mediu a composição dos grãos, não a redução direta de gases em pessoas.
- Deixar de molho: manter os grãos em água por aproximadamente 8 a 12 horas favorece a hidratação e a passagem de parte dos oligossacarídeos para o líquido.
- Descartar a água: jogar fora o líquido do remolho e utilizar água nova no cozimento ajuda a remover substâncias que se dissolveram durante essa etapa.
- Cozinhar adequadamente: preparar o feijão até que os grãos fiquem macios melhora sua textura e garante o cozimento necessário para o consumo seguro.
- Observar as porções: quantidades menores podem ser mais bem toleradas por algumas pessoas, especialmente quando o consumo de leguminosas ainda não é frequente.
Como usar louro no feijão sem depender de mitos?
É possível manter o tempero na receita e, ao mesmo tempo, adotar medidas com melhor respaldo para o preparo dos grãos. O Tua Saúde reúne orientações para preparar feijão e diminuir o desconforto com gases, incluindo deixar os grãos de molho e cozinhá-los adequadamente. O uso de ervas também é mencionado, mas as evidências de que o louro, especificamente, reduza gases no feijão ainda são limitadas.
- Use o louro como tempero: uma ou duas folhas inteiras costumam ser suficientes para aromatizar uma panela doméstica, conforme a quantidade preparada e a preferência de sabor.
- Retire as folhas antes de servir: elas podem continuar rígidas depois do cozimento e não devem ser engolidas inteiras.
- Combine com outros temperos naturais: alho, cebola, salsinha e outros ingredientes podem variar o sabor sem depender de caldos industrializados ricos em sódio.
- Cuide do remolho: em ambientes quentes, manter os grãos na geladeira durante períodos prolongados de molho ajuda a evitar deterioração.

É preciso deixar de comer feijão quando ele causa gases?
Na maioria das vezes, não. O feijão fornece proteínas vegetais, fibras, ferro e outros nutrientes importantes para uma alimentação equilibrada. A fermentação de seus carboidratos é um processo natural, e a quantidade de gases produzida varia conforme a microbiota intestinal, o tamanho das porções e a sensibilidade individual. Mesmo depois do remolho, parte dos oligossacarídeos permanece nos grãos, portanto não existe garantia de que o desconforto desapareça. Introduzir o alimento gradualmente e observar a tolerância pode ajudar.
Quando os gases são muito frequentes, provocam dor importante ou aparecem acompanhados de diarreia persistente, sangue nas fezes ou perda de peso sem explicação, é recomendável procurar avaliação médica. O desconforto pode envolver outros alimentos ou condições digestivas que precisam ser investigadas. Para quem tolera bem o feijão, não há motivo para abandonar o louro: ele pode continuar na panela pelo sabor, enquanto o remolho e o cozimento adequado cumprem funções diferentes e mais bem fundamentadas.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação ou orientação de um profissional de saúde.








