Uma vacina utilizada para prevenir o herpes-zóster, doença conhecida como cobreiro, entrou no centro de uma pesquisa sobre a prevenção da demência. Um estudo publicado na revista Nature em 2025 encontrou uma redução relativa de aproximadamente 20% na probabilidade de novos diagnósticos de demência entre idosos que receberam a imunização. O resultado chama atenção porque sugere um possível benefício para a saúde cerebral além da proteção contra o vírus. Entretanto, ainda são necessários novos estudos para confirmar o efeito e entender se ele também ocorre com as vacinas utilizadas atualmente.
Qual vacina foi associada ao menor risco de demência?
A vacina investigada foi a versão de vírus vivo atenuado contra herpes-zóster, utilizada anteriormente em programas de vacinação de idosos. Ela foi desenvolvida para reduzir o risco de reativação do vírus varicela-zóster, responsável pela catapora e que pode permanecer inativo no organismo durante décadas. Com o envelhecimento, esse vírus pode voltar a se manifestar e provocar lesões dolorosas na pele.
Os pesquisadores investigaram se a proteção contra essa reativação poderia estar relacionada a uma menor ocorrência de demência. É importante diferenciar a vacina estudada da versão recombinante mais recente, conhecida como Shingrix. Embora ambas tenham como objetivo prevenir herpes-zóster, elas utilizam tecnologias diferentes, e os resultados da pesquisa não podem ser automaticamente transferidos de uma para a outra.
O que o estudo publicado na Nature descobriu?
A pesquisa A natural experiment on the effect of herpes zoster vaccination on dementia, publicada em abril de 2025, analisou registros de saúde de idosos no País de Gales. Os cientistas aproveitaram uma regra de vacinação baseada na data de nascimento, que tornou determinadas pessoas elegíveis à vacina e outras, nascidas pouco antes, inelegíveis. Essa diferença permitiu comparar grupos semelhantes e reduzir parte dos vieses comuns em pesquisas observacionais.
Durante sete anos de acompanhamento, a vacinação foi associada a uma redução estimada de 3,5 pontos percentuais na probabilidade de um novo diagnóstico de demência, equivalente a uma redução relativa de 20%. Isso não significa que 20 em cada 100 pessoas vacinadas deixaram de desenvolver a doença. O estudo oferece evidências importantes de um possível efeito protetor, mas não foi um ensaio clínico randomizado desenvolvido especificamente para comprovar a prevenção da demência.

Por que a vacina poderia proteger o cérebro?
Os mecanismos ainda não foram esclarecidos, mas os cientistas investigam diferentes explicações para a possível relação entre a vacinação contra herpes-zóster e a saúde cerebral:
- Menor reativação do vírus: a vacinação pode diminuir episódios de herpes-zóster, reduzindo a exposição do organismo às consequências da reativação viral.
- Redução de processos inflamatórios: pesquisadores investigam se evitar reativações do vírus poderia diminuir processos relacionados à inflamação no sistema nervoso.
- Resposta do sistema imunológico: a vacina pode provocar alterações na atividade imunológica que ultrapassam a proteção específica contra herpes-zóster, hipótese ainda não confirmada.
- Menor ocorrência de complicações: prevenir episódios da doença reduz o risco de problemas como a neuralgia pós-herpética, embora isso não explique necessariamente o resultado observado para demência.
Quais cuidados são necessários ao interpretar a pesquisa?
Embora o estudo tenha utilizado uma metodologia capaz de reduzir importantes diferenças entre os grupos, seus resultados precisam ser analisados dentro do contexto da população e da vacina investigadas. Algumas limitações merecem atenção:
- População específica: a pesquisa utilizou dados de idosos do País de Gales, não sendo possível garantir o mesmo resultado em todas as idades e populações.
- Tipo de vacina: a análise principal envolveu a vacina de vírus vivo atenuado, diferente da versão recombinante atualmente utilizada em muitos países.
- Diagnósticos registrados: os pesquisadores avaliaram novos registros de demência, sem aplicar testes cognitivos padronizados a todos os participantes.
- Necessidade de confirmação: novos estudos independentes e ensaios clínicos são importantes para determinar se a vacinação realmente previne ou atrasa o desenvolvimento da demência.

Vale tomar a vacina para prevenir a demência?
Atualmente, a vacinação contra herpes-zóster tem como principal finalidade prevenir o cobreiro e suas complicações, especialmente a neuralgia pós-herpética, uma dor que pode persistir após a recuperação das lesões na pele. O possível benefício relacionado à demência ainda não constitui uma indicação estabelecida. No Brasil, a vacina recombinante é recomendada para determinados grupos conforme idade e condições de saúde, como explica o Tua Saúde em seu conteúdo sobre a vacina contra herpes-zóster.
A decisão de se vacinar deve considerar as recomendações vigentes, a idade, o histórico de saúde e possíveis contraindicações, com orientação profissional. Para a saúde cerebral, também continuam relevantes medidas como controlar a pressão arterial e o diabetes, manter atividade física regular e evitar o tabagismo. O resultado de 2025 amplia as possibilidades de pesquisa sobre a demência, mas ainda não permite afirmar que tomar essa vacina garante proteção contra a doença.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de profissionais de saúde.









