O café aparece com frequência em pesquisas sobre a saúde do fígado, e alguns resultados parecem animadores: pessoas que consomem a bebida regularmente apresentam, em certos estudos, níveis mais baixos de algumas enzimas hepáticas. Isso indica uma associação interessante, mas não significa que o café faça essas enzimas diminuírem nem que funcione como tratamento para gordura no fígado. Quando pesquisas mais controladas são consideradas, a conclusão fica mais cautelosa.
O que os estudos observacionais encontraram?
Uma meta-análise publicada em 2020 reuniu 19 estudos observacionais, com mais de 222 mil participantes, e encontrou associação entre maior consumo de café e níveis mais baixos de ALT e AST. Essas duas enzimas são medidas em exames de sangue e podem aumentar quando existem determinadas alterações ou lesões no fígado.
O resultado ajuda a entender por que o café ganhou fama de possível aliado do fígado. Porém, existe uma diferença importante entre observar que consumidores de café apresentam exames diferentes e demonstrar que foi a bebida que provocou essa diferença. Estudos observacionais identificam relações, mas não conseguem eliminar completamente a influência de outros fatores.
Isso significa que o café consegue baixar ALT e AST?
Não dá para fazer essa afirmação. Pessoas que tomam café podem apresentar diferenças de alimentação, peso corporal, atividade física, consumo de álcool, presença de diabetes e diversos outros hábitos que também influenciam a saúde hepática. Por isso, encontrar enzimas mais baixas entre consumidores da bebida não comprova uma relação de causa e efeito.
Quando o café foi avaliado em pesquisas experimentais, os resultados foram menos convincentes. Uma meta-análise de 14 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 897 participantes, não encontrou redução significativa de ALT, AST ou GGT causada pelo consumo de café. A diferença entre esses achados reforça a necessidade de interpretar os estudos observacionais com cuidado.

Enzimas mais baixas significam que o fígado está saudável?
Nem sempre. ALT, também chamada de TGP, e AST, conhecida como TGO, ajudam na investigação da saúde hepática, mas não mostram sozinhas tudo o que está acontecendo no órgão. O conteúdo do Tua Saúde sobre exames usados para avaliar o fígado explica que ALT, AST e outras análises são interpretadas em conjunto com o quadro clínico e, quando necessário, com exames de imagem.
Por isso, uma pessoa pode ter gordura no fígado mesmo com algumas enzimas dentro dos valores de referência. Na avaliação, o médico pode considerar diferentes informações, como:
- ALT, AST, GGT e outros exames de sangue;
- presença de diabetes, colesterol alto ou excesso de peso;
- consumo de bebidas alcoólicas e medicamentos;
- ultrassom ou outros exames de imagem;
- avaliação do risco de fibrose quando houver indicação.
Tomar café trata gordura no fígado?
Não. O café não deve ser usado como tratamento para esteatose hepática nem como tentativa de normalizar exames alterados. O Tua Saúde explica que a gordura no fígado pode estar relacionada a fatores metabólicos e hábitos de vida e que o acompanhamento pode envolver mudanças na alimentação, atividade física e outras medidas orientadas pelo médico.
Para quem já toma café e tolera bem a bebida, não há motivo para encarar esses resultados como uma obrigação de aumentar o consumo. Também vale lembrar que cafés com muito açúcar, xaropes, leite condensado ou cremes acrescentam açúcar, gordura e calorias à rotina, o que muda completamente o contexto da bebida.

O que fazer quando as enzimas do fígado estão alteradas?
ALT, AST ou GGT elevadas podem ter diferentes causas, e simplesmente aumentar o consumo de café pode atrasar a investigação do problema. Alterações persistentes devem ser avaliadas por um médico, especialmente quando existem outros fatores de risco ou alterações em exames de imagem. O mais importante é descobrir a causa e acompanhar a saúde do fígado como um todo, em vez de tentar modificar um único número do exame com um alimento ou bebida.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico.









