Pesquisadores australianos identificaram um subtipo de depressão ligado a alterações no relógio biológico, chamado depressão circadiana. Ele apareceu em cerca de um quarto das pessoas com depressão grave, recorrente ou persistente, analisadas no estudo. Esse grupo relatou menos benefício com os antidepressivos mais comuns, o que pode abrir espaço para tratamentos voltados ao ritmo do sono, como terapia com luz e melatonina.
O que é o relógio biológico?
O corpo funciona em um ciclo de cerca de 24 horas, chamado de ritmo circadiano. Ele é comandado por uma região do cérebro que usa a luz do dia como referência para regular o sono, a fome, a temperatura e a liberação de hormônios como a melatonina e o cortisol.
Quando esse relógio se desregula, a pessoa pode dormir e acordar em horários incompatíveis com a rotina, ter sono de má qualidade e sentir cansaço mesmo após dormir. Há tempos os cientistas observam que essas alterações caminham junto com a depressão.

O que o novo estudo descobriu?
A pesquisa usou dados de milhares de pessoas com depressão. Segundo um estudo publicado no British Journal of Psychiatry em outubro de 2026, cientistas do Brain and Mind Centre da Universidade de Sydney analisaram informações clínicas e genéticas de 11.380 adultos de 18 a 90 anos, participantes de um grande estudo nacional sobre genética da depressão na Austrália.
Quem reunia ao menos três de seis características de desregulação do relógio biológico foi classificado no novo grupo. O resultado mostrou que cerca de 1 em cada 4 pessoas tinha o perfil de depressão circadiana. Nesse grupo, a doença começou mais cedo, os sintomas foram mais graves e houve mais pensamentos suicidas.
Quais sinais caracterizam a depressão circadiana?
Segundo os pesquisadores, as pessoas com esse perfil costumam relatar:
- Preferência por dormir e acordar muito tarde, o perfil de notívago;
- Acordar extremamente cansado, mesmo após horas de sono;
- Horários de sono irregulares e difíceis de ajustar;
- Sintomas que começam na adolescência ou no início da vida adulta;
- Mudanças bruscas de humor e de energia.
A maioria das pessoas identificadas com o subtipo era formada por mulheres.
Por que o subtipo pode mudar o tratamento?
No estudo, o grupo circadiano relatou menos benefício com os antidepressivos de primeira escolha, que agem na serotonina, e mais efeitos colaterais, como sonolência, náusea, ansiedade e ganho de peso.
Os autores sugerem que, nesses casos, tratamentos voltados ao relógio biológico sejam considerados mais cedo. Entre eles estão a terapia com luz pela manhã, a melatonina e antidepressivos que agem nos receptores de melatonina. Organizar o sono também faz parte do cuidado, e entender as causas da dificuldade para dormir ajuda a conversar com o médico.

Quais são os limites da pesquisa?
O estudo foi baseado em informações relatadas pelos próprios participantes em um único momento, sem medir diretamente o ritmo biológico com exames. Por isso, ele mostra associações, e não comprova que o relógio desregulado cause a depressão. Os próprios autores e especialistas independentes pedem cautela e defendem ensaios clínicos que testem os tratamentos direcionados nesse grupo.
O que fazer diante desses sinais
Quem tem depressão e percebe que o sono está muito desregulado, ou que os antidepressivos não ajudam, deve conversar com o psiquiatra antes de qualquer mudança. Não é recomendado suspender remédios nem iniciar melatonina por conta própria. Manter horários fixos, se expor à luz natural pela manhã e reduzir telas à noite são medidas simples que apoiam o relógio biológico. Em caso de pensamentos de morte, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um psiquiatra ou psicólogo. Não altere o tratamento da depressão sem orientação profissional.









