A jararaca, de nome científico Bothrops jararaca, está ligada a uma das histórias mais conhecidas da farmacologia brasileira. Estudos iniciados com seu veneno ajudaram a revelar mecanismos envolvidos no controle da pressão arterial e abriram caminho para o desenvolvimento do captopril. Isso não significa que o comprimido seja feito de veneno de cobra: o medicamento é uma molécula sintética criada a partir do conhecimento obtido nessas pesquisas.
O que os cientistas descobriram ao estudar a jararaca?
A história começou no fim da década de 1940, quando pesquisadores brasileiros estudavam os efeitos do veneno da jararaca no organismo. Maurício Rocha e Silva, Wilson Beraldo e Gastão Rosenfeld identificaram a bradicinina, uma substância produzida pelo próprio organismo capaz de favorecer a dilatação dos vasos sanguíneos.
Anos depois, o farmacologista brasileiro Sérgio Henrique Ferreira aprofundou essas investigações. Em 1965, ele descreveu no veneno da Bothrops jararaca substâncias conhecidas como fatores de potenciação da bradicinina. A Universidade de São Paulo explica que esses peptídeos também interferiam na enzima conversora de angiotensina, a ECA, envolvida na regulação da pressão arterial.
Como a pesquisa brasileira levou ao captopril?
O desenvolvimento do medicamento ocorreu em várias etapas e envolveu pesquisadores de diferentes países. As descobertas brasileiras forneceram pistas fundamentais sobre o funcionamento da ECA e mostraram que bloquear essa enzima poderia diminuir a pressão.
De forma simplificada, a trajetória passou por estes momentos:
- no fim dos anos 1940, estudos com veneno de jararaca contribuíram para a descoberta da bradicinina;
- em 1965, Sérgio Ferreira descreveu os fatores que potencializavam a ação da bradicinina;
- pesquisas posteriores mostraram que esses peptídeos podiam inibir a ECA;
- na década de 1970, David Cushman e Miguel Ondetti, da farmacêutica Squibb, usaram esse conhecimento para desenvolver uma molécula sintética que pudesse ser administrada por via oral: o captopril.
A trajetória é considerada um marco da pesquisa brasileira. A história apresentada pelo Instituto Butantan destaca a participação de Sérgio Henrique Ferreira e os anos de pesquisas e testes necessários até que se chegasse ao medicamento usado em pacientes.

O captopril contém veneno de jararaca?
Não. O captopril não é veneno purificado nem contém uma dose do veneno da serpente. Os compostos encontrados na jararaca serviram como uma espécie de modelo biológico para entender qual mecanismo poderia ser explorado para controlar a pressão.
A partir dessas informações, os pesquisadores desenvolveram uma molécula sintética capaz de bloquear a ECA e que pudesse ser transformada em medicamento. Esse detalhe é importante porque a expressão “remédio feito de veneno” pode dar a impressão errada de que a substância presente no comprimido é retirada diretamente da cobra.
Por que bloquear a ECA ajuda a reduzir a pressão?
A ECA participa da formação da angiotensina II, uma substância que favorece a contração dos vasos sanguíneos. Quando a enzima é inibida, há menor formação de angiotensina II e os vasos tendem a ficar mais relaxados, facilitando a circulação do sangue e reduzindo a pressão arterial.
Esse é o mecanismo de ação dos chamados inibidores da ECA. O captopril é indicado principalmente para pressão alta e algumas doenças cardiovasculares, devendo ser utilizado com prescrição e acompanhamento médico.

Por que essa descoberta ainda é lembrada?
A história da jararaca mostra como uma observação feita em pesquisa básica pode, depois de muitas etapas, contribuir para um tratamento usado na medicina. Nem toda molécula promissora encontrada em animais chega a se transformar em medicamento, e o caminho até o captopril exigiu isolamento de substâncias, compreensão de seus mecanismos, criação de uma molécula sintética e testes para avaliar eficácia e segurança.
Por isso, o caso é frequentemente citado como um exemplo de pesquisa translacional: uma descoberta sobre o funcionamento do organismo acabou ajudando a criar uma nova classe de medicamentos para doenças cardiovasculares.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica. Medicamentos para pressão alta não devem ser iniciados, suspensos ou ter a dose alterada sem orientação profissional.









