Substâncias presentes na peçonha de algumas aranhas estão sendo estudadas como ponto de partida para novos analgésicos. O interesse não está em usar o veneno diretamente, mas em isolar ou modificar pequenos peptídeos capazes de agir sobre canais e receptores envolvidos na transmissão da dor. Os resultados são promissores principalmente em estudos de laboratório e com animais, mas ainda não significam que exista um analgésico de veneno de aranha disponível para tratar dor crônica.
Por que a peçonha de aranha interessa aos pesquisadores?
A peçonha é uma mistura complexa de moléculas desenvolvidas para interferir rapidamente no sistema nervoso de presas e predadores. Entre elas estão peptídeos capazes de se ligar de maneira bastante específica a canais iônicos, estruturas que participam da comunicação entre os neurônios e também da percepção dolorosa.
No Brasil, o Laboratório de Dor e Sinalização do Instituto Butantan estuda dor aguda e crônica, inflamação e analgesia e utiliza venenos e toxinas animais como fontes para a busca de novas moléculas analgésicas. O instituto também desenvolve há décadas pesquisas sobre os mecanismos pelos quais peçonhas, inclusive de aranhas, interferem nas vias da dor.
Como uma molécula do veneno poderia diminuir a dor?
Um dos principais alvos investigados é o canal de sódio Nav1.7, presente em neurônios envolvidos na condução dos estímulos dolorosos. Alterações genéticas que reduzem drasticamente sua atividade podem levar à insensibilidade à dor, o que tornou esse canal um alvo importante para a pesquisa de novos medicamentos.
Alguns peptídeos encontrados em aranhas conseguem bloquear ou modificar a atividade desse e de outros canais. Em um estudo que avaliou peçonhas de 205 aranhas, pesquisadores encontraram inibidores do Nav1.7 em aproximadamente 40% das amostras e isolaram sete novos peptídeos capazes de atuar nesse alvo.

Os testes já conseguiram reduzir a dor?
Sim, mas os resultados mais importantes ainda são pré-clínicos. Moléculas isoladas ou desenvolvidas a partir de peptídeos de aranhas já reduziram comportamentos associados à dor em modelos animais de inflamação e dor neuropática. Outras pesquisas tentam modificar essas moléculas para que atuem de maneira mais seletiva e permaneçam estáveis tempo suficiente no organismo.
Os cientistas procuram características como:
- seletividade para atingir canais relacionados à dor sem interferir em outros tecidos;
- potência suficiente para funcionar em pequenas concentrações;
- estabilidade para que o peptídeo não seja degradado rapidamente;
- baixa toxicidade para células e órgãos não envolvidos na dor;
- uma forma segura e prática de administrar o possível medicamento.
Por que transformar esses peptídeos em remédios é difícil?
Bloquear um canal envolvido na dor não basta. Canais de sódio semelhantes estão presentes no coração, nos músculos e em outras partes do sistema nervoso. Uma molécula pouco seletiva poderia provocar efeitos indesejados. Uma revisão sobre peptídeos de aranhas modificados para atingir o Nav1.7 destaca justamente a seletividade e outras propriedades farmacológicas entre os obstáculos que ainda precisam ser superados.
Por isso, os pesquisadores costumam partir da molécula natural e alterar sua estrutura para tentar preservar o efeito desejado e reduzir ações sobre outros canais. Esse processo pode envolver anos de testes antes que um candidato sequer avance para estudos clínicos em pessoas.

Isso pode mudar o tratamento da dor crônica?
As peçonhas ampliam o número de moléculas que podem servir de modelo para novos medicamentos, algo relevante porque a dor crônica pode ter diferentes causas e mecanismos e nem sempre responde adequadamente aos tratamentos disponíveis. A possibilidade de atingir vias específicas da transmissão dolorosa é uma das razões para o interesse nesses peptídeos.
Por enquanto, porém, eles devem ser vistos como candidatos em desenvolvimento, e não como tratamentos disponíveis. Peçonha de aranha é potencialmente tóxica e nunca deve ser usada ou manipulada como tentativa caseira de controlar a dor.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento indicados por um profissional de saúde.









