O colesterol LDL costuma ser tratado como um número único a perseguir. Depois dos 60 anos, essa lógica perde força. Com o envelhecimento, as artérias, o metabolismo do fígado e a presença de outras doenças crônicas mudam a forma de ler o exame de sangue. Por isso, a meta de um idoso que já teve infarto raramente será a mesma de alguém sem placas nas artérias.
Por que o colesterol LDL ganha outra leitura depois dos 60?
O LDL transporta colesterol do fígado para os tecidos. Quando sobra na circulação, ele se deposita na parede dos vasos e forma placas de aterosclerose. Esse processo é lento e se acumula com o tempo. Aos 60 anos, muitas pessoas já somam décadas de exposição, e isso pesa no cálculo do risco cardiovascular.
A idade também traz fatores que alteram o perfil lipídico. Menopausa, hipotireoidismo, ganho de gordura abdominal e uso de alguns diuréticos podem elevar o LDL. Já desnutrição, inflamação crônica ou câncer podem baixar o colesterol sem deixar as artérias mais protegidas. Nesse contexto, um valor muito baixo pode ser sinal de fragilidade, e não de coração saudável.
O que a ciência mostra sobre uma faixa intermediária?
Uma pesquisa recente avaliou mais de 217 mil participantes do UK Biobank, todos com 60 anos ou mais, e cruzou os níveis de gordura no sangue com as doenças do coração. Os pesquisadores encontraram uma relação em formato de U entre o LDL e a doença cardiovascular. Valores muito altos e valores muito baixos apareceram ligados a mais eventos cardíacos e a mais mortes por causa cardiovascular.
O menor risco ficou numa faixa intermediária de LDL. Esse resultado não autoriza ninguém a abandonar o tratamento. Dados desse tipo mostram associação, não causa. Parte dos idosos com LDL muito baixo já tinha doenças que derrubam o colesterol por conta própria. A mensagem é que o número precisa ser lido junto com a história clínica de cada paciente.

Como a Sociedade Brasileira de Cardiologia define a meta de cada pessoa?
A Sociedade Brasileira de Cardiologia não trabalha com um valor único de referência para o LDL. A diretriz brasileira de dislipidemias define metas conforme o risco cardiovascular estimado de cada pessoa. Esse cálculo leva em conta pontos como:
- idade, sexo e histórico familiar de doença cardíaca precoce;
- pressão alta e tabagismo atual ou passado;
- diabetes e doença renal crônica;
- infarto, AVC, angioplastia ou cirurgia de ponte de safena anteriores;
- placas vistas em exames de imagem, como o ultrassom de carótidas.
Pela classificação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, alguém de baixo risco pode ter como alvo um LDL abaixo de 115 mg/dL. Quem já sofreu um infarto entra na categoria de risco muito alto, com meta abaixo de 50 mg/dL. Assim, dois idosos de 68 anos podem receber orientações opostas a partir de um mesmo resultado de exame.
O colesterol HDL baixo também merece atenção depois dos 60?
O colesterol HDL recolhe o excesso de colesterol dos tecidos e o devolve ao fígado para ser eliminado. Valores abaixo de 40 mg/dL em homens e de 50 mg/dL em mulheres costumam vir acompanhados de sedentarismo, obesidade abdominal, triglicerídeos altos e resistência à insulina. Na terceira idade, o HDL baixo funciona mais como marcador de risco do que como alvo isolado de tratamento.
Remédios para aumentar o colesterol HDL não trouxeram proteção extra nos estudos clínicos. O que funciona melhor é caminhar com regularidade, parar de fumar e controlar o peso. Antes da próxima consulta, ajuda conhecer os tipos de colesterol no sangue e saber onde cada um aparece no lipidograma.
Estatinas ainda fazem sentido depois dos 75 anos?
As estatinas reduzem a produção de colesterol no fígado e são o tratamento mais estudado para baixar o LDL. Uma análise complementar publicada em 2020, feita só com pessoas de 75 anos ou mais, mostrou que cada queda de 1 mmol/L no LDL reduziu os eventos vasculares em cerca de 26%. Essa queda equivale a cerca de 39 mg/dL, e o benefício foi parecido com o visto em adultos mais jovens. Antes de iniciar ou manter as estatinas, o médico costuma avaliar:
- interações com outros medicamentos de uso contínuo;
- função do fígado e dos rins;
- dores musculares ou fraqueza, que podem pedir ajuste de dose;
- expectativa de vida, autonomia e preferências do paciente.
Risco cardiovascular individual vale mais que número de tabela
Depois dos 60, o mesmo resultado de LDL pode pedir estatinas em dose mais alta para quem já teve infarto. Para quem não tem placas nem diabetes, pode bastar uma revisão anual do exame. Leve ao cardiologista o histórico de eventos, a lista de remédios e os exames anteriores, incluindo o colesterol HDL. Com esses dados, ele calcula o risco cardiovascular pelos critérios da Sociedade Brasileira de Cardiologia e define uma meta adequada a cada idoso.
Este material tem finalidade informativa e não substitui a avaliação de um médico ou cardiologista. Se o exame de colesterol vier alterado ou houver dúvidas sobre o uso de medicamentos, procure acompanhamento profissional.









