A peçonha de escorpiões contém pequenas moléculas capazes de interagir com microrganismos, e algumas delas vêm sendo estudadas como possíveis pontos de partida para novos antimicrobianos. Pesquisas brasileiras já identificaram peptídeos com atividade contra bactérias, inclusive microrganismos resistentes a medicamentos, mas esses resultados ainda estão principalmente em fases experimentais e não significam que exista um novo antibiótico à base de veneno disponível para uso.
O que existe no veneno capaz de atacar bactérias?
Entre as centenas de componentes presentes na peçonha estão os chamados peptídeos antimicrobianos, pequenas cadeias de aminoácidos que podem agir sobre bactérias e outros microrganismos. Alguns conseguem se ligar à membrana bacteriana e prejudicar seu funcionamento, um mecanismo diferente do utilizado por diversos antibióticos convencionais.
Isso desperta interesse diante da resistência bacteriana, situação em que determinados antibióticos deixam de funcionar adequadamente contra certas bactérias. O objetivo das pesquisas não é utilizar diretamente a peçonha em pacientes, mas identificar moléculas promissoras e, muitas vezes, produzir versões sintéticas que possam ser estudadas e modificadas em laboratório.
Quais pesquisas brasileiras já encontraram resultados?
Um exemplo surgiu de uma colaboração envolvendo a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o Instituto Butantan. Pesquisadores identificaram no escorpião Tityus stigmurus um peptídeo chamado Stigmurin. Em experimentos publicados na revista Peptides, a molécula apresentou atividade antibacteriana e antifúngica em laboratório, embora também tenha demonstrado toxicidade para algumas células avaliadas.
Desde então, diferentes grupos brasileiros vêm estudando moléculas semelhantes e versões modificadas desses peptídeos. Entre os caminhos investigados estão:
- identificar quais sequências conseguem impedir o crescimento de bactérias;
- testar a ação contra cepas resistentes a antibióticos;
- reduzir possíveis efeitos tóxicos sobre células humanas;
- entender como alterações na estrutura do peptídeo mudam sua atividade;
- avaliar moléculas sintéticas inspiradas nas encontradas originalmente na peçonha.

Esses peptídeos conseguem atingir bactérias resistentes?
Há resultados promissores. Pesquisadores ligados à UFRN desenvolveram análogos da Stigmurin chamados StigA8 e StigA18 e observaram atividade em laboratório contra isolados clínicos multirresistentes e redução de biofilmes de Staphylococcus aureus. Os compostos também foram avaliados em larvas usadas como modelo experimental antes de estudos mais avançados.
Outra linha brasileira analisa a peçonha de Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo comum no país. Uma pesquisa da USP avaliou centenas de sequências peptídicas e selecionou algumas para produção sintética e ensaios biológicos. Parte dos peptídeos testados inibiu o crescimento de Staphylococcus aureus, reforçando o potencial da peçonha como fonte de moléculas para investigação.
O Brasil continua procurando novas moléculas?
Sim. A busca permanece ativa em diferentes universidades. Em 2026, por exemplo, um projeto apoiado pela FAPESP na Universidade Estadual Paulista, a Unesp, passou a investigar peptídeos antimicrobianos presentes na peçonha de Tityus serrulatus, incluindo etapas de fracionamento e testes de atividade biológica.
Esse tipo de trabalho mostra como uma molécula encontrada na natureza pode servir de protótipo para futuras pesquisas. Encontrar atividade antibacteriana, no entanto, é apenas uma das primeiras etapas. Também é necessário estudar toxicidade, estabilidade, dose, forma de administração e comportamento da molécula dentro do organismo.

Quando isso poderia virar um medicamento?
Ainda não existe prazo para que esses peptídeos se tornem antibióticos disponíveis. Muitos resultados foram obtidos em culturas de células, bactérias ou modelos experimentais, muito antes das etapas necessárias para testar segurança e eficácia em seres humanos. Além disso, algumas moléculas que matam bactérias também podem danificar células humanas, um dos principais desafios que os pesquisadores tentam contornar.
Por enquanto, portanto, a peçonha de escorpião deve ser entendida como uma fonte de moléculas que pode inspirar futuros medicamentos, e não como um tratamento. A descoberta de um peptídeo promissor ainda precisa passar por várias fases de desenvolvimento antes que seja possível saber se ele realmente funcionará com segurança em pacientes.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou tratamento médico. Infecções bacterianas devem ser tratadas com medicamentos prescritos por um profissional de saúde.









