O intestino e o cérebro mantêm uma comunicação constante, e as bactérias que vivem no sistema digestivo participam desse diálogo. Pesquisas brasileiras encontraram diferenças na microbiota e em substâncias produzidas no intestino entre pessoas com diferentes níveis de sintomas de ansiedade e depressão, reforçando o interesse científico pelo chamado eixo intestino-cérebro. Os resultados, porém, mostram associação e não provam que determinadas bactérias sejam a causa de depressão ou ansiedade.
O que o estudo brasileiro encontrou?
Pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal de Ouro Preto analisaram 18 adultos jovens e saudáveis, sem diagnóstico psiquiátrico. O grupo foi avaliado por escalas de sintomas de depressão e ansiedade, variabilidade da frequência cardíaca e análises de amostras de fezes.
O estudo publicado em 2024 encontrou diferenças em metabólitos intestinais e na abundância de bactérias do filo Firmicutes entre alguns dos grupos analisados. Substâncias como acetato, valerato e glutamato também apareceram de forma diferente conforme os sintomas e o chamado tônus vagal, relacionado à atividade do nervo vago.
Como o intestino consegue se comunicar com o cérebro?
O eixo intestino-cérebro funciona nos dois sentidos e envolve diferentes caminhos. Entre eles estão o nervo vago, o sistema imunológico, hormônios e substâncias produzidas durante o metabolismo das bactérias intestinais. Esses sinais podem participar de processos ligados à resposta ao estresse, inflamação e funcionamento do sistema nervoso.
Algumas bactérias produzem ácidos graxos de cadeia curta e outros metabólitos capazes de interagir com células intestinais e mecanismos imunológicos. O estudo brasileiro encontrou diferenças em alguns desses compostos, mas ainda não é possível determinar se essas alterações contribuem para os sintomas ou se surgem como consequência de outros fatores.

Isso significa que uma microbiota alterada causa ansiedade ou depressão?
Não. Esse é justamente um dos principais cuidados na interpretação das pesquisas sobre o tema. O estudo brasileiro tinha apenas 18 participantes, analisou associações em um momento específico e os próprios autores ressaltaram que o tamanho reduzido da amostra aumenta a necessidade de interpretar os resultados com cautela.
Uma revisão sistemática sobre microbiota intestinal em pessoas com depressão e ansiedade também encontrou diferenças na composição bacteriana entre grupos, mas observou resultados inconsistentes entre os estudos. Alimentação, medicamentos, estilo de vida e outras características podem modificar a microbiota e dificultar a identificação de uma relação direta de causa e efeito.
Probióticos ou mudanças na alimentação podem melhorar o humor?
A alimentação influencia a composição e a atividade da microbiota, e alimentos fermentados e ricos em fibras podem fazer parte de uma dieta equilibrada. O Tua Saúde explica que os probióticos são microrganismos vivos capazes de atuar no equilíbrio da flora intestinal, mas seus efeitos dependem da cepa, dose e condição para a qual estão sendo utilizados.
Isso significa que não existe um probiótico genérico capaz de “equilibrar o intestino” e tratar problemas emocionais. Pesquisas investigam algumas cepas como complemento em saúde mental, mas os resultados ainda não permitem substituir psicoterapia, medicamentos ou outros tratamentos indicados para depressão e ansiedade.

O que essas descobertas mudam no cuidado com a saúde mental?
O principal avanço é mostrar que a saúde mental envolve uma rede mais ampla do que apenas o cérebro. Sono, alimentação, atividade física, sistema imunológico, funcionamento intestinal e fatores psicológicos e sociais podem interagir entre si. A microbiota passou a ser estudada como mais uma peça dessa rede, e não como uma explicação única para alterações do humor.
Depressão e transtornos de ansiedade continuam exigindo avaliação especializada quando os sintomas são persistentes ou interferem na rotina. Cuidar da alimentação e da saúde intestinal pode fazer parte de uma estratégia geral de saúde, mas não deve substituir acompanhamento com psicólogo, psiquiatra ou outro profissional responsável pelo tratamento.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica, psicológica ou psiquiátrica individualizada.









