Os registros de atendimento por transtornos de ansiedade entre adolescentes brasileiros cresceram de forma expressiva na última década. Dados reunidos a partir da rede pública mostram aumentos de várias vezes entre 2014 e 2024, especialmente na faixa dos 15 aos 19 anos. Isso não significa que qualquer preocupação ou nervosismo na adolescência seja um transtorno, mas reforça a importância de reconhecer quando a ansiedade começa a prejudicar a rotina.
O que os números mostram sobre a ansiedade nos adolescentes?
Uma análise publicada em 2026 na revista Saúde em Debate, com base em dados da Rede de Atenção Psicossocial, aponta que os atendimentos relacionados a transtornos de ansiedade cresceram fortemente entre jovens de 2014 a 2024. O avanço foi de 1.575% entre 10 e 14 anos e de 4.423% entre 15 e 19 anos.
Esses números se referem a registros de atendimento, e não simplesmente ao número de adolescentes que desenvolveram ansiedade. Maior procura por serviços, ampliação do acesso, melhor reconhecimento dos sintomas e mudanças na forma de registrar os casos também podem contribuir para o crescimento observado.
Por que ansiedade não é apenas preocupação ou nervosismo?
Sentir ansiedade antes de uma prova, apresentação ou situação nova faz parte da vida. O problema merece atenção quando o medo e a preocupação se tornam intensos, persistentes ou difíceis de controlar e começam a interferir no sono, nos estudos, nas amizades ou na convivência familiar. Entender o que é ansiedade e quando ela deixa de ser uma reação passageira ajuda a evitar tanto a banalização quanto o excesso de preocupação.
A Organização Mundial da Saúde estima que 4,1% dos adolescentes de 10 a 14 anos e 5,3% dos jovens de 15 a 19 anos apresentem algum transtorno de ansiedade. A OMS também destaca que esses quadros podem afetar a frequência escolar, o desempenho acadêmico e as relações sociais.

Quais sinais devem chamar a atenção dos pais?
Um sintoma isolado nem sempre indica um transtorno. O que costuma pesar mais é a combinação entre intensidade, persistência e impacto sobre atividades que antes faziam parte da rotina. Alguns sinais que merecem observação incluem:
- preocupação excessiva e difícil de controlar;
- irritabilidade ou inquietação frequentes;
- dificuldade para dormir ou sono prejudicado;
- dores de barriga, náusea, tremores ou coração acelerado sem explicação aparente;
- evitar escola, provas, encontros ou outras situações por medo;
- queda importante no rendimento escolar;
- isolamento e abandono de atividades de que gostava.
Em entrevista sobre o aumento dos casos, o psiquiatra da infância e adolescência Thiago Pianca, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, ressaltou que os transtornos ansiosos também aparecem em crianças e jovens e que o início da adolescência é um dos períodos em que esses quadros podem se tornar mais evidentes.
O que pode estar por trás desse aumento?
Não existe uma causa única. A saúde mental na adolescência é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, familiares e sociais. Bullying, violência, conflitos familiares, dificuldades econômicas, pressão por desempenho e experiências traumáticas podem aumentar a vulnerabilidade, mas não significam que o adolescente necessariamente desenvolverá um transtorno.
Um estudo da Faculdade de Medicina da USP, publicado em 2025 a partir do acompanhamento de mais de 4 mil jovens brasileiros, encontrou associação entre experiências traumáticas na infância e maior ocorrência posterior de transtornos como ansiedade e depressão. Os pesquisadores estimaram que parte dos diagnósticos aos 18 anos estava relacionada à exposição prévia a diferentes tipos de trauma, sem estabelecer que esses eventos sejam a única causa.

Quando é hora de procurar ajuda profissional?
A avaliação de um psicólogo, psiquiatra da infância e adolescência ou pediatra é indicada quando os sintomas persistem, provocam sofrimento importante ou interferem na escola, no sono, nas relações e nas atividades cotidianas. Falar sobre o problema sem julgamentos costuma ser mais útil do que dizer ao adolescente para simplesmente “se acalmar” ou tratar o comportamento como falta de esforço.
Também é importante procurar ajuda rapidamente diante de falas sobre morte, desesperança intensa, automutilação ou mudanças importantes de comportamento. Ansiedade tem tratamento, e identificar o problema cedo pode reduzir seu impacto na vida escolar, familiar e social.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual de um médico, psicólogo ou outro profissional de saúde mental.








