Treinar à noite depois de várias horas sem comer fez o organismo usar mais gordura como combustível durante o exercício em um experimento recente. Mas houve um efeito que complica a ideia de que essa estratégia necessariamente favorece o emagrecimento: os participantes também ficaram com mais fome e consumiram mais energia depois do treino. O resultado reforça uma diferença importante entre oxidar mais gordura durante uma sessão e realmente perder mais gordura corporal ao longo do tempo.
O que aconteceu quando o exercício foi feito em jejum à noite?
O ensaio randomizado crossover envolveu 35 adultos jovens e saudáveis. Cada participante realizou sessões de 30 minutos de corrida em esteira a 65% do VO2 de pico em diferentes horários e condições alimentares, permitindo comparar exercício pela manhã e à noite após períodos distintos sem comer.
No cenário de exercício noturno após 12 horas de jejum, a oxidação de gordura chegou a 4,03 kcal por minuto, contra 3,27 kcal por minuto no exercício matinal após o mesmo período de jejum. Portanto, mais gordura estava sendo usada como fonte de energia durante aquela sessão.
Por que a fome depois do treino chamou tanta atenção?
O resultado mais curioso apareceu depois do exercício. Comparado ao treino matinal após 12 horas de jejum, o exercício noturno nas mesmas condições foi seguido por maior fome, maior desejo de comer e menor sensação de saciedade.
O ensaio publicado em 2026 no American Journal of Clinical Nutrition encontrou ainda uma ingestão cerca de 400 kcal maior na refeição oferecida após o exercício e, em média, 547 kcal a mais ao longo de 24 horas na condição de jejum noturno de 12 horas em relação à condição matinal equivalente.

Queimar mais gordura durante o exercício significa emagrecer mais?
Não necessariamente. A oxidação de gordura mostra qual combustível o organismo está utilizando naquele momento. Perder gordura corporal, por outro lado, depende do balanço energético acumulado durante dias e semanas, além de fatores como alimentação, gasto energético, quantidade de exercício e adesão à rotina.
Assim, uma estratégia pode aumentar o uso de gordura durante os 30 minutos de treino e, ainda assim, não produzir maior perda de gordura se houver compensação posteriormente com maior ingestão de alimentos. Para quem busca reduzir o peso, manter uma alimentação saudável para emagrecer ao longo do dia pode ser mais relevante do que tentar maximizar isoladamente a quantidade de gordura usada durante uma sessão.
Comer antes do treino resolveu o aumento da fome?
O estudo também avaliou um grupo menor de participantes treinando após alimentação. Comer antes do exercício reduziu a oxidação de gordura durante a atividade, como era esperado, mas não eliminou o aumento da ingestão energética e do apetite relacionado ao exercício no período da noite.
Os pesquisadores também testaram um jejum noturno mais curto, de seis horas. Essa mudança reduziu a ingestão na refeição imediatamente após o exercício quando comparada ao jejum de 12 horas à noite, mas não produziu uma redução significativa no consumo total registrado durante as 24 horas.

O que esse resultado muda na prática?
O estudo não demonstra que treinar em jejum à noite provoca ganho de peso nem que essa estratégia deve ser evitada. Ele analisou respostas agudas em adultos jovens e saudáveis, e não acompanhou mudanças no peso ou na gordura corporal durante semanas ou meses.
O principal recado é que usar mais gordura durante o exercício não deve ser interpretado isoladamente como sinal de maior emagrecimento. Para algumas pessoas, treinar à noite sem comer pode encaixar bem na rotina. Para outras, a fome posterior pode dificultar o controle da alimentação. Horário, intensidade do exercício, duração do jejum, desempenho e resposta individual precisam ser considerados em conjunto.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação individual de médico, nutricionista ou profissional de educação física, especialmente para pessoas com diabetes, episódios de hipoglicemia, uso de medicamentos ou outras condições que possam tornar o exercício em jejum inadequado.








