Sentir os pés queimando ao deitar, com ardência, formigamento ou uma sensação estranha de picadas, é uma queixa mais comum do que parece e nem sempre é apenas cansaço. Esse desconforto pode ser um dos primeiros sinais de que os nervos periféricos estão sendo afetados por níveis altos de glicose no sangue, mesmo em pessoas que ainda não sabem que têm diabetes. Reconhecer esse sintoma é fundamental para investigar o quadro cedo e evitar complicações mais graves.
O que é a neuropatia diabética periférica?
A neuropatia diabética periférica é uma lesão progressiva dos nervos causada pelo excesso prolongado de glicose no sangue. Ela atinge principalmente os nervos mais longos do corpo, que se estendem até os pés, e por isso os sintomas costumam aparecer primeiro nas extremidades inferiores.
Trata-se de uma das complicações mais frequentes do diabetes, podendo surgir tanto em quem já tem diagnóstico quanto em pessoas com pré-diabetes ainda não identificado. Quando não controlada, evolui de forma silenciosa e pode causar perda de sensibilidade e feridas nos pés.
Por que a queimação piora à noite?
Muitos pacientes relatam que o desconforto se intensifica ao deitar, quando o corpo está em repouso e há menos estímulos externos para desviar a atenção do sintoma. A ausência de distrações torna a percepção da dor neuropática mais evidente, além de a temperatura corporal noturna também influenciar na sensibilidade dos nervos afetados.
Além da queimação, outros sinais comuns incluem formigamento, dormência, sensação de agulhadas e dor ao toque de superfícies antes indiferentes, como o lençol. Esses sintomas costumam ser simétricos, afetando ambos os pés ao mesmo tempo, e podem interferir na qualidade do sono.

Como um estudo científico relaciona esse sintoma ao diabetes?
A literatura médica confirma que a queimação nos pés é um dos sinais mais importantes de comprometimento neurológico associado ao diabetes. Segundo o posicionamento Diabetic Neuropathy: A Position Statement by the American Diabetes Association publicado na revista Diabetes Care, até 50% das pessoas com diabetes desenvolvem algum grau de neuropatia periférica, sendo a forma sensitiva distal a mais comum.
Os autores destacam que o rastreamento precoce e o controle rigoroso da glicemia são fundamentais para evitar a progressão dos danos aos nervos. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda avaliação anual dos pés e monitoramento regular dos níveis glicêmicos em pessoas com fatores de risco ou glicose alterada.
Quais exames ajudam a investigar?
Quando surgem sintomas como queimação nos pés, sensação de choque ou formigamento persistente, o médico costuma solicitar exames laboratoriais para avaliar a glicemia e o padrão glicêmico ao longo do tempo. Os principais são:
- Glicemia de jejum, que mede a glicose no sangue após pelo menos oito horas sem alimentação
- Hemoglobina glicada, ou HbA1c, que reflete a média dos níveis de glicose dos últimos dois a três meses
- Teste oral de tolerância à glicose, útil na identificação de pré-diabetes e diabetes gestacional
- Glicemia casual, colhida em qualquer momento do dia, quando há sintomas sugestivos
- Exame neurológico com monofilamento, feito no consultório para avaliar a sensibilidade dos pés
- Eletroneuromiografia, indicada em casos selecionados para confirmar o comprometimento dos nervos

Como prevenir e cuidar dos pés?
Além do controle rigoroso da glicemia, alguns cuidados diários fazem diferença na proteção dos nervos e na prevenção de complicações mais graves, como o pé diabético. As principais recomendações são:
- Manter a glicemia dentro das metas estabelecidas pelo endocrinologista, com acompanhamento regular
- Adotar uma alimentação equilibrada, com baixo consumo de açúcar e carboidratos refinados
- Praticar atividade física regular, respeitando as orientações médicas
- Inspecionar os pés diariamente em busca de cortes, bolhas, rachaduras ou alterações de cor
- Usar calçados confortáveis e fechados, evitando andar descalço mesmo em casa
- Hidratar a pele dos pés, evitando o espaço entre os dedos, e cortar as unhas retas
- Procurar avaliação com endocrinologista, neurologista ou clínico geral diante de qualquer sintoma persistente
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado. Diante de sintomas persistentes nos pés ou suspeita de diabetes, procure um médico de sua confiança.









