Por muito tempo, quem convive com enxaqueca frequente ouviu que a solução era apenas cortar chocolate, queijo, café ou vinho da rotina. A ciência atual, porém, mostra que a maior parte das crises não começa no prato, e sim no cérebro, que passa a reagir de forma exagerada a estímulos comuns como luz, som, cheiros, calor e variações hormonais. Entender essa hipersensibilidade neural é essencial para deixar a culpa dos alimentos em segundo plano e buscar um tratamento realmente eficaz para a dor.
O que é hipersensibilidade neural na enxaqueca?
A enxaqueca é hoje considerada uma doença neurológica crônica em que o cérebro de algumas pessoas processa estímulos de forma diferente. Em vez de filtrar sons, luzes e cheiros do dia a dia, o sistema nervoso amplifica esses sinais e desencadeia a crise.
Essa hiperexcitabilidade tem base genética e explica por que o mesmo estímulo, como um perfume forte ou uma tela muito clara, causa dor em algumas pessoas e passa despercebido em outras. A alimentação pode influenciar, mas raramente é a causa central do quadro.
Qual o papel do sistema trigeminovascular?
O sistema trigeminovascular reúne o nervo trigêmeo e os vasos sanguíneos das meninges, as membranas que envolvem o cérebro. Quando esse sistema é ativado, libera substâncias que causam inflamação e dor, dando origem ao pulsar típico da enxaqueca.
Estudos mostram que, na crise, o trigêmeo fica mais sensível e passa a responder de forma exagerada a estímulos que antes eram tolerados. Isso ajuda a explicar sintomas como sensibilidade à luz, ao som e ao movimento, além da crise de enxaqueca se estender por horas ou dias.

O que é o CGRP e por que ele mudou a compreensão da enxaqueca?
O CGRP, sigla para peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, é uma das principais substâncias liberadas pelo sistema trigeminovascular durante uma crise. Ele age dilatando vasos e amplificando o sinal de dor no cérebro. Os principais achados sobre o CGRP incluem:
- Seus níveis aumentam no sangue de pessoas com enxaqueca durante as crises;
- A infusão de CGRP em quem tem enxaqueca é capaz de desencadear crises semelhantes às espontâneas;
- O CGRP participa da sensibilização do nervo trigêmeo, reforçando a hipersensibilidade neural;
- Está envolvido em fenômenos como sensibilidade da pele do couro cabeludo durante a dor;
- Também parece contribuir para a transição da enxaqueca episódica para a forma crônica;
- É o alvo direto de uma nova classe de medicamentos preventivos, os anticorpos anti-CGRP.
O que um estudo científico mostra sobre essa nova compreensão?
As evidências dos últimos anos consolidaram a enxaqueca como um transtorno de processamento sensorial, e não uma resposta a alimentos específicos. De acordo com o estudo The pathophysiology of migraine: implications for clinical management, uma revisão publicada em 2017 na revista The Lancet Neurology, editada por Elsevier no Reino Unido, o cérebro da pessoa com enxaqueca apresenta hiperexcitabilidade e ativação do sistema trigeminovascular, com liberação de CGRP e sensibilização de vias centrais da dor.
O autor destaca que essa compreensão é a base científica dos novos tratamentos com anticorpos anti-CGRP, que bloqueiam a ação dessa substância e reduzem a frequência e a intensidade das crises, especialmente em quem não respondeu a preventivos tradicionais.
Como é o tratamento atual da enxaqueca?
De acordo com orientações de sociedades como a Sociedade Brasileira de Cefaleia, o tratamento da enxaqueca combina diferentes frentes e deve ser individualizado por um neurologista. As principais estratégias incluem:
- Medicamentos de crise, como analgésicos comuns, anti-inflamatórios, triptanos e, mais recentemente, gepantes e ditanos;
- Preventivos tradicionais, como betabloqueadores, alguns antidepressivos, anticonvulsivantes e toxina botulínica em casos crônicos;
- Anticorpos monoclonais anti-CGRP, aplicados em intervalos regulares para reduzir a frequência das crises em quadros mais graves;
- Ajustes no estilo de vida, com sono regular, hidratação, controle do estresse e prática de atividade física;
- Identificação de gatilhos individuais, que podem incluir jejum prolongado, privação de sono e alterações hormonais, mas nem sempre alimentos;
- Acompanhamento de comorbidades comuns, como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Quando procurar avaliação médica?
Dor de cabeça frequente, que atrapalha a rotina, exige uso repetido de analgésicos ou vem acompanhada de sintomas como alterações visuais, náuseas intensas, formigamentos ou dificuldade de fala merece investigação. Um neurologista pode confirmar o diagnóstico, afastar outras causas de dor e definir o melhor plano de tratamento.
Automedicar-se por longos períodos aumenta o risco de dor de cabeça por uso excessivo de analgésicos e pode piorar o quadro. Por isso, o mais indicado é buscar orientação médica profissional para uma avaliação completa e um tratamento ajustado ao seu caso.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde qualificado.








