Durante 30 anos, Tatyana Thompson acordava todos os dias com dor. Antes mesmo de colocar os pés no chão, sua primeira atitude era abrir a gaveta do criado-mudo e pegar seus remédios. Diagnosticada com anemia falciforme aos dois meses de vida, ela nunca conheceu uma manhã diferente. Até que um transplante de medula óssea realizado no Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos, mudou completamente essa realidade. Pela primeira vez, Thompson abriu os olhos e sentiu algo que jamais havia experimentado: nenhuma dor.
Uma vida inteira marcada por crises de dor
Nos melhores dias, a dor de Thompson ficava em torno do nível cinco numa escala de zero a dez. Era um incômodo constante nas articulações, nas mãos e nas costas. Nos piores dias, bastava uma mudança brusca de temperatura ou um episódio de desidratação para que a dor disparasse sem aviso. Internações hospitalares eram tão frequentes que ela perdeu a conta de quantas vezes precisou ser socorrida.
A anemia falciforme provoca esse tipo de sofrimento porque altera o formato dos glóbulos vermelhos. Em vez de serem arredondados e flexíveis, eles assumem o formato de foice, ficam rígidos e se agrupam nos vasos sanguíneos. Isso bloqueia a passagem do sangue e impede que o oxigênio chegue aos tecidos e órgãos, causando crises de dor intensa, anemia crônica e danos progressivos ao coração, pulmões, rins e cérebro.
Quando a maternidade tornou tudo mais difícil
A situação de Thompson se agravou quando ela engravidou do primeiro filho. A gestação intensificou os sintomas da doença e trouxe complicações que a levaram a passar mais tempo no hospital do que em casa. Após o nascimento do bebê, ela fez uma promessa: nunca mais perderia um momento importante da vida do seu filho por causa da doença. Foi essa determinação que a levou a pesquisar novas opções de tratamento.
Ainda no hospital, Thompson leu sobre um programa de pesquisa do Johns Hopkins que estudava transplantes de medula óssea com compatibilidade parcial. Diferente do transplante convencional, que exige um doador com combinação genética quase perfeita, esse novo procedimento funciona com doadores que compartilham apenas 50% dos marcadores genéticos. Pais, irmãos, filhos, tios e primos podem ser candidatos. Ao descobrir que seu irmão mais novo, Dakota, era compatível, Thompson decidiu que tentaria.

Um procedimento simples que mudou tudo
Em julho de 2024, após dias de preparação para que seu sistema imunológico aceitasse as células do doador, Thompson foi submetida ao transplante. O procedimento durou cerca de duas horas e foi semelhante a uma transfusão de sangue. Não houve cortes nem pontos. A medula óssea do irmão foi transferida de uma bolsa diretamente para o cateter da paciente, enquanto sua família acompanhava tudo no quarto que sua mãe havia decorado especialmente para o dia.
Thompson recebeu alta no mesmo dia. Nos meses seguintes, as dores foram diminuindo gradualmente até que, em 12 de janeiro de 2025, dia do seu aniversário, ela havia abandonado completamente os medicamentos para dor que usou por toda a vida. Pela primeira vez em 30 anos, Thompson podia tomar banho, levar o lixo para fora e brincar com o filho sem sentir dor.
Estudo no NEJM Evidence comprova a segurança e eficácia do tratamento
A experiência de Thompson não é um caso isolado. Segundo o estudo “Haploidentical Bone Marrow Transplantation for Sickle Cell Disease”, publicado no periódico NEJM Evidence em 2025, esse tipo de transplante apresentou uma taxa de sobrevida livre de doença de 94% entre os participantes. O ensaio clínico de fase II foi conduzido em 19 centros médicos e avaliou 54 adultos com formas graves de anemia falciforme. Dos 42 pacientes que receberam o transplante, 95% estavam vivos dois anos depois e 88% foram considerados curados. Além disso, o procedimento demonstrou menor risco de comprometimento da fertilidade e exigiu apenas seis meses de imunossupressão, metade do tempo necessário em outras abordagens. Confira o estudo completo neste link do PubMed.
Por que esse avanço representa esperança para milhões de pessoas
A anemia falciforme afeta cerca de 100 mil pessoas nos Estados Unidos e milhões ao redor do mundo, sendo mais comum entre a população negra e afrodescendente. No Brasil, é a doença hereditária mais frequente, segundo o Ministério da Saúde. Historicamente, a maior barreira para a cura sempre foi a dificuldade em encontrar doadores de medula totalmente compatíveis. Com o transplante de compatibilidade parcial, essa barreira praticamente desaparece, já que quase todos os pacientes possuem ao menos um familiar elegível. Outros pontos que tornam esse tratamento promissor incluem:
- O custo estimado é de aproximadamente 467 mil dólares, enquanto as terapias gênicas podem ultrapassar 2 milhões de dólares.
- A internação média é de 8 dias, contra 6 a 8 semanas exigidas pela terapia gênica.
- O número de transfusões necessárias após o procedimento é significativamente menor do que nas demais abordagens curativas.
Para conhecer mais sobre os sintomas, o diagnóstico e todas as opções de tratamento disponíveis para a anemia falciforme, acesse o guia completo do Tua Saúde.
O que Thompson deseja para o futuro
Hoje, Tatyana Thompson diz que passou por tudo isso para ajudar outras pessoas. Sua história mostra que os avanços da medicina estão tornando a cura da anemia falciforme cada vez mais acessível. No entanto, cada organismo reage de maneira diferente, e a decisão sobre o melhor caminho terapêutico deve ser tomada junto a um hematologista, que avaliará a gravidade da doença, o histórico clínico e as condições individuais de cada paciente.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento de um profissional de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure orientação médica qualificada.









