A doença de Alzheimer pode estar diante de uma virada histórica no campo das terapias neurodegenerativas. Um estudo inédito publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revelou que células imunológicas modificadas geneticamente, conhecidas como CAR-T, conseguiram reduzir significativamente as placas de beta-amiloide no cérebro de modelos animais. A descoberta representa o primeiro uso dessa imunoterapia celular, originalmente desenvolvida contra o câncer, no combate a uma doença neurodegenerativa.
O que são as células CAR-T e como elas atuam no cérebro?
As células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) são linfócitos T retirados do organismo e modificados em laboratório para reconhecer alvos específicos. Na oncologia, essa técnica revolucionou o tratamento de neoplasias hematológicas. Agora, pesquisadores adaptaram essa abordagem para direcionar as células contra as proteínas beta-amiloides, que se acumulam no tecido cerebral de pacientes com Alzheimer.
A equipe internacional, liderada pelo Prof. Ido Amit, do Instituto Weizmann de Ciências, e pelo Prof. Jonathan Kipnis, da Universidade de Washington em St. Louis, modificou geneticamente células T CD4+ para que identificassem e respondessem às formas fibrilares de amiloide agregado no sistema nervoso central.
Quais foram os resultados do estudo em modelos animais?
Os pesquisadores injetaram as células CAR-T modificadas em camundongos cujos cérebros já apresentavam acúmulo de placas amiloides, característica marcante da doença de Alzheimer. Após três aplicações espaçadas por dez dias, os resultados mostraram uma redução expressiva nos depósitos de beta-amiloide e uma diminuição nos marcadores de neuroinflamação.
Os principais achados do estudo incluem:
- Redução significativa das placas de proteína beta-amiloide no córtex cerebral dos camundongos tratados
- Diminuição da ativação de micróglias e astrócitos, células associadas à inflamação no tecido nervoso
- Recrutamento de células T CD4+ endógenas para o parênquima cerebral e as leptomeninges
- Melhora geral na saúde do tecido cerebral em comparação com o grupo controle

Por que essa descoberta é relevante para o tratamento do Alzheimer?
A doença de Alzheimer é a principal causa de demência associada ao envelhecimento no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência, e estima-se que esse número alcance 139 milhões até 2050. Os tratamentos disponíveis atualmente, incluindo imunoterapias baseadas em anticorpos, apresentam eficácia limitada e riscos consideráveis para os pacientes.
A abordagem com células CAR-T oferece vantagens potenciais em relação aos métodos convencionais:
- Capacidade de migrar diretamente até o local da patologia no sistema nervoso central
- Possibilidade de remodelar o microambiente imunológico cerebral de forma ativa
- Potencial de adaptação para outras doenças neurodegenerativas, como esclerose lateral amiotrófica (ELA) e doença de Parkinson
O que dizem os pesquisadores sobre o futuro dessa terapia?
Jonathan Kipnis destacou que este é o primeiro uso de células CAR-T contra uma doença neurodegenerativa e que os resultados abrem caminho para novas terapias contra o Alzheimer. Segundo ele, a versatilidade dessas células permite que sejam adaptadas para carregar agentes terapêuticos direcionados a diferentes condições do sistema nervoso.
Ido Amit complementou que, em estudos futuros, a equipe pretende investigar o uso de células T modificadas para promover a regeneração do tecido cerebral após danos graves. A expectativa é que a tecnologia CAR-T sirva como uma plataforma terapêutica ampla, abrangendo desde tumores cerebrais até acidentes vasculares encefálicos e doenças neurodegenerativas crônicas.
Para quem deseja consultar os dados completos da pesquisa, o estudo original está disponível na revista PNAS sob o título “Engineering chimeric antigen receptor CD4 T cells for Alzheimer’s disease”, publicado em fevereiro de 2026. O artigo detalha todo o processo de engenharia genética das células, os protocolos de aplicação em modelos animais e a análise dos resultados sobre a redução de placas amiloides e inflamação cerebral. Acesse o estudo completo em: https://doi.org/10.1073/pnas.2530977123.
Qual é o panorama atual dos tratamentos para a doença de Alzheimer?
Enquanto a terapia com células CAR-T ainda está em fase pré-clínica, os pacientes diagnosticados com Alzheimer contam com tratamentos que visam retardar a progressão dos sintomas cognitivos e comportamentais. Medicamentos como donepezila, rivastigmina e galantamina atuam como inibidores da colinesterase, preservando a comunicação entre neurônios. A memantina, por sua vez, age nos receptores NMDA e é indicada para estágios moderados a graves da doença.
Para entender melhor os sintomas, as causas e as opções de tratamento atualmente disponíveis para essa condição neurodegenerativa, confira o guia completo sobre a doença de Alzheimer, com informações revisadas por profissionais de saúde.









