A ciência começou a encontrar microplásticos e nanoplásticos alojados em placas de gordura nas artérias humanas, e essa descoberta abriu uma nova frente de investigação sobre doenças cardiovasculares. Pesquisas recentes apontam que essas partículas podem estar associadas a um risco maior de infarto e AVC, embora ainda não seja possível afirmar que causam diretamente esses eventos. Entender o que se sabe até agora ajuda a interpretar as manchetes sem alarmismo e a focar no que realmente reduz o risco cardíaco.
O que são microplásticos e como chegam ao corpo?
Microplásticos são fragmentos de plástico menores que 5 milímetros, e nanoplásticos são partículas ainda menores, invisíveis a olho nu. Eles se formam a partir da degradação de embalagens, garrafas, tecidos sintéticos e produtos industriais.
Essas partículas entram no organismo principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados, pelo ar que respiramos e pelo contato com embalagens plásticas. Uma vez absorvidas, podem circular pela corrente sanguínea e se depositar em diferentes tecidos.
Como as partículas foram identificadas em placas arteriais?
Os pesquisadores retiraram placas de gordura das artérias carótidas de pacientes durante cirurgias de endarterectomia, procedimento indicado para desobstruir vasos comprometidos pela aterosclerose. Em seguida, o material removido foi analisado em laboratório.
Foram usadas técnicas avançadas como pirólise combinada com cromatografia gasosa, espectrometria de massa e microscopia eletrônica, capazes de detectar polietileno e cloreto de polivinila (PVC) mesmo em quantidades muito pequenas, além de identificar visualmente os fragmentos entre as células da placa.

Como um estudo do NEJM ligou microplásticos a infarto e AVC?
A principal referência sobre o tema é um estudo observacional multicêntrico prospectivo que acompanhou pacientes submetidos à cirurgia de carótida por quase três anos. Segundo o estudo Microplastics and Nanoplastics in Atheromas and Cardiovascular Events, publicado no periódico The New England Journal of Medicine em 2024, foram identificados fragmentos de polietileno em 58,4% das placas analisadas e cloreto de polivinila em 12,1% delas.
Os autores observaram que pacientes com microplásticos e nanoplásticos nas placas apresentaram risco maior de sofrer infarto, AVC ou morte por qualquer causa durante o acompanhamento. Ainda assim, os próprios pesquisadores reforçam que se trata de uma associação estatística, e não de prova de causa e efeito.
Por que associação não é o mesmo que causa?
Estudos observacionais mostram que dois fatores aparecem juntos, mas não conseguem provar que um provoca o outro. É importante considerar algumas limitações antes de tirar conclusões:
- Pacientes com microplásticos nas placas tinham outros fatores de risco, como tabagismo e diabetes, que também elevam o risco de infarto e AVC
- Não é possível saber se os plásticos chegaram antes da formação da placa ou se ficaram retidos depois que ela já existia
- O estudo não incluiu pessoas saudáveis, apenas pacientes com doença carotídea avançada
- A relação entre inflamação, plásticos e progressão da aterosclerose ainda precisa ser confirmada em pesquisas maiores
- Fatores como exposição ambiental, alimentação e genética podem influenciar tanto a presença dos plásticos quanto o risco cardiovascular

O que fazer para proteger o coração e reduzir a exposição?
Enquanto a ciência avança na investigação, medidas conhecidas continuam sendo as mais eficazes para reduzir o risco cardiovascular. Ações práticas incluem:
- Controlar colesterol, pressão arterial e glicemia com acompanhamento médico regular
- Manter alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, grãos integrais e peixes
- Praticar atividade física regularmente e evitar o sedentarismo
- Não fumar e limitar o consumo de álcool
- Preferir garrafas de vidro ou aço inox em vez de plásticas para consumo diário
- Evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos, especialmente no micro-ondas
- Reduzir o uso de embalagens descartáveis e itens plásticos de uso único
- Ficar atento aos sinais de alerta e conhecer os sintomas da aterosclerose para procurar avaliação precoce
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre a saúde cardiovascular, procure orientação médica.









