Muita gente sai da consulta com um resultado incômodo: o cálculo de risco cardiovascular não aponta perigo evidente, mas também não descarta nada. Nessa faixa do meio, decidir se vale começar um remédio para colesterol vira um impasse entre médico e paciente. O escore de cálcio, uma tomografia rápida e sem contraste, ganhou espaço na nova diretriz de dislipidemias de 2026 justamente para desempatar essa conta, mostrando se as artérias do coração já acumulam placas.
O que é o escore de cálcio
Trata-se de um exame de imagem que quantifica o cálcio depositado nas artérias coronárias. É feito em um tomógrafo, leva poucos minutos, dispensa contraste e não exige internação nem preparo complexo.
O cálcio funciona como sinal indireto de aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura nas paredes das artérias. Em outras palavras, o resultado mostra se a doença já começou, e não apenas a probabilidade de ela aparecer.
Por que a calculadora de risco deixa dúvida
As calculadoras estimam a chance de infarto ou AVC nos próximos anos a partir de idade, colesterol, pressão arterial e outros dados. O impasse surge nas faixas limítrofe, de 3% a menos de 5%, e intermediária, de 5% a menos de 10%.
Nesses dois grupos, o número sozinho não fecha a decisão sobre iniciar tratamento. É aí que enxergar a artéria costuma ajudar mais do que repetir exames de sangue.

Quem a diretriz de 2026 indica para o exame
Conforme o resumo divulgado pela National Lipid Association, o uso é seletivo, e não universal. O exame entra em cena nestas condições:
- Homens a partir dos 40 anos e mulheres a partir dos 45 anos.
- Risco de dez anos classificado como limítrofe ou intermediário.
- Situações em que o resultado realmente vai definir se a estatina começa ou não.
- Pessoas sem doença cardiovascular já diagnosticada, cenário em que o tratamento independe dessa imagem.
O que mostra o estudo que consolidou o escore de cálcio
A confiança nessa ferramenta vem de pesquisas que acompanharam milhares de adultos saudáveis para verificar se o cálcio visto na tomografia antecipava mesmo os infartos. Segundo o estudo de coorte prospectivo Coronary Calcium as a Predictor of Coronary Events in Four Racial or Ethnic Groups, publicado no New England Journal of Medicine, a resposta foi afirmativa.
A pesquisa avaliou 6.722 adultos de quatro grupos étnicos, todos sem doença cardíaca conhecida no início do acompanhamento. Quanto maior o escore, maior o número de eventos, e quem tinha cálcio acima de 100 apresentou risco várias vezes superior ao de quem tinha escore zero, mesmo considerando os fatores de risco tradicionais.

O que muda conforme o resultado
O número obtido não serve apenas para assustar ou tranquilizar. Ele passou a orientar diretamente a meta de colesterol LDL que o tratamento deve perseguir:
- Escore zero, sem cálcio detectável, costuma pesar a favor de adiar a medicação, sempre a critério médico.
- Escore de 1 a 99, abaixo do percentil 75 para idade e sexo, aponta meta de LDL menor que 100 mg/dL.
- Escore de 100 a 299, ou acima do percentil 75, aponta meta menor que 70 mg/dL.
- Escore igual ou superior a 1.000 aponta meta menor que 55 mg/dL.
O exame não substitui a avaliação clínica e envolve uma dose baixa de radiação, por isso a indicação precisa ser individualizada pelo cardiologista.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento indicado por um médico.









