A enxaqueca vai muito além de uma dor de cabeça forte. Trata-se de uma condição neurológica complexa que se desenvolve em até quatro fases distintas, cada uma com sintomas próprios que podem durar horas ou dias. A Organização Mundial da Saúde classifica a enxaqueca como uma das doenças mais incapacitantes do mundo, afetando cerca de 15% da população global. Entender essas fases pode fazer toda a diferença na hora de reconhecer os primeiros sinais e agir antes que a dor se instale por completo.
A fase de alerta que surge antes da dor
A primeira fase da enxaqueca é chamada de fase premonitória ou pródromo e pode começar de 24 a 48 horas antes da dor de cabeça aparecer. Nesse período, o cérebro envia sinais sutis de que uma crise está a caminho, provocados pela ativação anormal de uma região cerebral chamada hipotálamo, que regula funções como apetite, humor e sono.
Os sintomas mais comuns dessa fase incluem irritabilidade, cansaço excessivo, dificuldade de concentração, bocejos frequentes, rigidez no pescoço e desejo por alimentos específicos. Cerca de 8 em cada 10 pessoas com enxaqueca experimentam esses sinais premonitórios. Reconhecê-los a tempo permite iniciar o tratamento de forma precoce e potencialmente reduzir a intensidade da crise.
A aura e suas alterações sensoriais
A segunda fase é a aura, que atinge aproximadamente 30% das pessoas com enxaqueca. Ela se manifesta como alterações temporárias na visão, na sensibilidade ou até na fala, durando geralmente entre 15 e 60 minutos. Os sintomas visuais são os mais frequentes e podem incluir:
PONTOS LUMINOSOS
Flashes ou brilhos que surgem no campo visual e se movem lentamente.
MANCHAS CEGAS
Áreas escuras ou bloqueadas que dificultam temporariamente a visão.
FORMIGAMENTO
Sensação de formigamento no rosto ou membros que pode migrar pelo corpo.
ALTERAÇÃO NA FALA
Pode ocorrer dificuldade temporária para falar com clareza em casos mais intensos.
Essas alterações são causadas por uma onda de atividade elétrica que se propaga lentamente pelo cérebro e afeta temporariamente o funcionamento de determinadas regiões. Apesar de assustadores, esses sintomas são reversíveis e não indicam dano permanente.
Revisão científica detalha os mecanismos de cada fase da enxaqueca
A ciência tem avançado significativamente na compreensão dos processos que ocorrem em cada etapa de uma crise. Segundo a revisão “A Phase-by-Phase Review of Migraine Pathophysiology”, publicada na revista Headache em 2018, a enxaqueca é um distúrbio neurológico que envolve uma interação complexa entre regiões do cérebro, incluindo o hipotálamo, o tronco cerebral e o sistema nervoso trigêmeo. A revisão, conduzida pelo neurologista David Dodick, detalha como a ativação desse sistema libera substâncias químicas que provocam inflamação nos vasos sanguíneos do cérebro e geram a dor característica da enxaqueca. O estudo também destaca a importância de compreender cada fase individualmente para desenvolver tratamentos mais eficazes.
A fase da dor e a recuperação que pouca gente conhece
A terceira fase é a da dor de cabeça propriamente dita, que pode durar de 4 a 72 horas sem tratamento. A dor costuma ser latejante, afetar apenas um lado da cabeça e piorar com movimentos simples como caminhar ou subir escadas. Outros sintomas frequentes nessa fase são:
- Náuseas e vômitos — causados pela ativação de áreas do cérebro ligadas ao controle gástrico
- Sensibilidade extrema à luz e ao som — mesmo ambientes com iluminação suave podem se tornar insuportáveis
- Dor no pescoço e no couro cabeludo — o toque na região pode causar desconforto intenso
- Dificuldade para realizar atividades cotidianas — a dor pode ser tão intensa que impede o trabalho e o convívio social
Após a dor, vem a quarta fase, chamada de pósdromo ou “ressaca da enxaqueca“. Nesse período, o cérebro ainda está se recuperando e a pessoa pode sentir cansaço profundo, dificuldade de concentração e alterações de humor por até dois dias. Forçar o corpo durante essa fase pode desencadear uma nova crise antes que a anterior termine completamente.

Quando a enxaqueca exige acompanhamento especializado?
Embora muitas pessoas convivam com crises ocasionais que respondem bem a analgésicos, a enxaqueca merece atenção médica quando se torna frequente ou passa a comprometer a qualidade de vida. A enxaqueca é considerada crônica quando as crises ocorrem em 15 ou mais dias por mês durante pelo menos três meses seguidos.
Diante de qualquer mudança no padrão das crises, aumento da frequência ou surgimento de sintomas diferentes do habitual, o mais indicado é procurar um neurologista. Somente um profissional de saúde pode avaliar o quadro de forma individual, investigar possíveis causas associadas e indicar o tratamento mais adequado para prevenir novas crises e melhorar a qualidade de vida.









