Enquanto dormimos, o cérebro realiza uma operação de limpeza essencial para a saúde mental e cognitiva. Um sistema de drenagem próprio, chamado sistema glinfático, se torna muito mais ativo durante o sono e remove resíduos tóxicos que se acumulam ao longo do dia, incluindo proteínas diretamente ligadas ao desenvolvimento do Alzheimer. Entender como esse processo funciona e o que acontece quando ele falha pode mudar a forma como encaramos a qualidade do nosso descanso.
O que é o sistema glinfático e como ele funciona enquanto dormimos?
O sistema glinfático é uma rede de canais que envolve os vasos sanguíneos do cérebro e permite a circulação de um líquido que lava o tecido cerebral. Esse líquido percorre o espaço entre as células nervosas, recolhe substâncias residuais e as transporta para fora do cérebro. É como se fosse o sistema de esgoto do órgão mais complexo do corpo.
Durante o sono profundo, as células cerebrais diminuem de tamanho, ampliando os espaços entre elas e permitindo que o fluxo de limpeza aumente significativamente. Pesquisas demonstraram que esse processo pode ser até 60% mais eficiente durante o sono em comparação com a vigília. As ondas cerebrais lentas, típicas das fases mais profundas do sono, funcionam como impulsos que empurram o líquido através do cérebro, intensificando a remoção de resíduos.

A relação entre sono ruim e acúmulo de proteínas ligadas ao Alzheimer
Entre os resíduos que o sistema glinfático remove estão duas proteínas conhecidas por seu papel no desenvolvimento do Alzheimer: a beta-amiloide e a tau. Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, a eliminação dessas proteínas é prejudicada, permitindo que elas se acumulem no tecido cerebral ao longo dos anos. Esse acúmulo é uma das características centrais da doença.
Estudos mostraram que uma única noite de privação de sono já é capaz de reduzir a eliminação dessas substâncias. Além disso, pessoas com problemas crônicos de sono apresentam atraso persistente na limpeza cerebral, e mesmo uma noite de recuperação pode não ser suficiente para restaurar o funcionamento normal do sistema. Essa relação reforça a importância de tratar distúrbios do sono como uma questão de saúde cerebral.
Ensaio clínico em humanos confirma que o sono ativa a limpeza cerebral de proteínas do Alzheimer
A ligação entre sono e limpeza cerebral deixou de ser apenas uma observação em animais de laboratório. Segundo o ensaio clínico randomizado e cruzado “The glymphatic system clears amyloid beta and tau from brain to plasma in humans”, publicado na revista Nature Communications e indexado no PubMed, a limpeza glinfática durante o sono normal aumentou significativamente os níveis matinais de biomarcadores do Alzheimer no plasma dos participantes, em comparação com uma noite de privação de sono. O estudo, realizado com 39 voluntários, utilizou um dispositivo inovador para medir as alterações dinâmicas na atividade glinfática e concluiu que processos fisiológicos ativos durante o sono, especialmente a redução da resistência do tecido cerebral, facilitam a remoção dessas proteínas tóxicas para a corrente sanguínea.
Hábitos que favorecem a limpeza cerebral durante o sono
Algumas práticas simples podem ajudar a garantir que o sistema glinfático funcione da melhor forma possível durante a noite. Veja as mais recomendadas:
ROTINA REGULAR
Dormir e acordar nos mesmos horários favorece o sono profundo e a limpeza cerebral.
DURAÇÃO ADEQUADA
Dormir 7 a 8 horas por noite amplia o tempo de eliminação dos resíduos cerebrais.
MENOS TELAS
Evitar luz artificial antes de dormir ajuda a preservar o sono profundo.
MENOS ÁLCOOL E CAFEÍNA
Reduzir essas substâncias evita fragmentação do sono.
DORMIR DE LADO
A posição lateral pode favorecer o fluxo do sistema glinfático.
Quando a qualidade do sono exige investigação médica?
Se, apesar de bons hábitos, o sono continua fragmentado, insuficiente ou pouco restaurador, é importante investigar possíveis causas. Distúrbios como apneia do sono, insônia crônica e movimentos involuntários durante a noite podem comprometer a limpeza cerebral e acelerar processos neurodegenerativos sem que a pessoa perceba.
Consultar um médico neurologista ou especialista em medicina do sono é o caminho mais seguro para identificar e tratar essas condições. O acompanhamento profissional pode incluir exames específicos e orientações individualizadas que garantam não apenas noites melhores, mas também uma proteção mais eficaz para a saúde do cérebro a longo prazo.









