Uma alimentação baseada com frequência em refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, embutidos, cereais açucarados e outros ultraprocessados durante a infância pode estar associada a alterações no peso e em marcadores metabólicos ainda nos primeiros anos de vida. O impacto também pode se estender ao futuro porque padrões alimentares adquiridos cedo tendem, em algum grau, a acompanhar crianças e adolescentes ao longo do crescimento. Isso não significa que comer esses alimentos ocasionalmente determine uma doença na vida adulta, mas a frequência e o padrão alimentar ao longo dos anos merecem atenção.
O que os ultraprocessados podem fazer com o metabolismo infantil?
Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais que frequentemente concentram açúcar, sódio, gorduras e ingredientes refinados, além de oferecerem menos fibras e outros nutrientes do que uma alimentação baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados.
Uma revisão sistemática publicada na Nutrition Reviews em 2024 avaliou 17 estudos com crianças e adolescentes. A maioria encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e maior prevalência de excesso de peso, obesidade ou fatores de risco cardiometabólico. Como boa parte das pesquisas era observacional, porém, os resultados mostram associação e não provam que os ultraprocessados sejam, isoladamente, a causa dessas alterações.
Por que os efeitos podem aparecer somente depois de alguns anos?
O metabolismo não costuma mudar de maneira permanente por causa de uma refeição ou de um alimento isolado. A preocupação está na repetição. Quando alimentos muito energéticos e pobres em fibras ocupam grande parte da rotina, eles podem substituir frutas, verduras, feijão, cereais integrais e outras opções importantes para o crescimento e para a regulação da saciedade.
Uma revisão sistemática sobre ultraprocessados e adiposidade em crianças e adolescentes encontrou um dado interessante: quatro estudos longitudinais que acompanharam crianças por mais de quatro anos observaram associação positiva entre maior consumo desses produtos e indicadores de obesidade ou acúmulo de gordura. Já os estudos que analisavam apenas um momento apresentaram resultados menos consistentes, reforçando a importância de avaliar o padrão alimentar ao longo do tempo.

Os hábitos da infância realmente acompanham a pessoa até a fase adulta?
Eles podem acompanhar, embora não sejam imutáveis. Uma revisão sistemática publicada em 2025 sobre trajetórias alimentares desde os primeiros anos de vida reuniu estudos longitudinais e encontrou associações entre padrões de alimentação formados na infância ou adolescência e diferentes desfechos posteriores, incluindo obesidade e alterações cardiometabólicas, com acompanhamentos que chegaram à vida adulta.
Isso ajuda a explicar por que aprender cedo a consumir água, frutas, verduras, feijão e refeições preparadas com alimentos básicos pode ser relevante no longo prazo. Ao mesmo tempo, a infância não determina definitivamente a alimentação futura. Hábitos podem mudar na adolescência e na vida adulta, especialmente quando a família e o ambiente favorecem escolhas mais equilibradas.
É preciso eliminar completamente os ultraprocessados?
O foco não precisa estar na proibição absoluta nem em classificar um alimento ocasional como responsável por problemas metabólicos. O que faz maior diferença é observar quanto espaço esses produtos ocupam na alimentação habitual da criança.
Algumas estratégias que podem ajudar são:
- manter frutas disponíveis para os lanches;
- oferecer refeições com arroz, feijão, legumes, verduras, ovos, carnes ou outras fontes de proteína;
- priorizar água em vez de refrigerantes e outras bebidas açucaradas;
- evitar que biscoitos, salgadinhos e refeições prontas sejam a opção padrão todos os dias;
- envolver a criança no preparo e na escolha de alimentos variados.

Por que formar esses hábitos cedo faz diferença?
Na infância, a criança não está apenas recebendo nutrientes para crescer. Ela também está aprendendo quais sabores, alimentos e refeições fazem parte do cotidiano. Quanto maior a exposição repetida a diferentes frutas, verduras e preparações caseiras, maior a oportunidade de construir uma alimentação variada sem transformar comida saudável em obrigação ou castigo.
Por isso, reduzir a presença habitual de ultraprocessados deve ser entendido como parte de um padrão alimentar mais amplo, e não como uma medida isolada. O objetivo é criar uma rotina sustentável que favoreça crescimento adequado e saúde metabólica ao longo dos anos. Quando há excesso de peso, alterações em exames ou dificuldades importantes de alimentação, a avaliação de pediatra ou nutricionista pode ajudar a orientar mudanças adequadas para a idade.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou orientação individualizada de médico ou nutricionista.








