Refrigerantes diet e zero retiram grande parte ou todo o açúcar da bebida, mas isso não encerrou a discussão sobre seus efeitos metabólicos. Pesquisas recentes voltaram a investigar se alguns adoçantes não calóricos podem interagir com a microbiota intestinal, a resposta à glicose e marcadores relacionados à saúde metabólica e do fígado. Os resultados, porém, ainda são mistos e não permitem afirmar que essas bebidas provoquem doença hepática ou prejudiquem o intestino de todas as pessoas.
Por que os adoçantes voltaram ao centro das pesquisas?
Durante muito tempo, adoçantes não nutritivos foram avaliados principalmente pela capacidade de substituir o açúcar com poucas ou nenhuma caloria. Hoje, pesquisadores também tentam entender o que acontece depois que substâncias como sucralose, sacarina, aspartame e estévia entram em contato com diferentes sistemas do organismo.
Uma revisão publicada em 2026 sobre adoçantes, microbioma e saúde cardiometabólica reuniu dados de ensaios clínicos e estudos de coorte e apontou possíveis efeitos sobre o metabolismo da glicose, além de destacar a microbiota como um dos mecanismos investigados. Os próprios autores ressaltam limitações importantes nas evidências e a possibilidade de fatores de confusão nos estudos observacionais.
O que pode acontecer com a microbiota intestinal?
A microbiota é formada por diferentes microrganismos que vivem no intestino e participam de processos digestivos e metabólicos. Alguns adoçantes podem modificar esse ambiente, mas alterar a composição da microbiota não significa automaticamente causar uma doença. Além disso, adoçantes diferentes não necessariamente produzem o mesmo efeito.
Uma revisão de estudos em humanos publicada em 2023 encontrou mudanças significativas na microbiota em apenas dois de cinco ensaios clínicos avaliados. Em algumas pesquisas, sacarina e sucralose também estiveram relacionadas a alterações na tolerância à glicose, enquanto outros trabalhos não encontraram resultados semelhantes. Isso ajuda a explicar por que ainda não existe uma resposta simples sobre o tema. Para conhecer as diferenças entre os produtos, veja também os principais tipos de adoçante e suas características.

O refrigerante diet pode prejudicar o fígado?
A relação com o fígado é ainda mais difícil de interpretar. Um estudo baseado em dados da pesquisa norte-americana NHANES encontrou associação entre maior consumo de refrigerantes diet e maior ocorrência de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD. Entretanto, trata-se de uma análise observacional, portanto não é possível concluir que o refrigerante diet tenha causado o acúmulo de gordura no fígado.
Pessoas com excesso de peso, diabetes ou outros fatores metabólicos podem, por exemplo, consumir mais bebidas diet justamente porque já estão tentando reduzir açúcar e calorias. Esse fenômeno, chamado de causalidade reversa, dificulta separar o efeito da bebida das características de quem a consome. Por isso, estudos desse tipo servem principalmente para levantar hipóteses que precisam ser confirmadas por pesquisas mais controladas.
Então refrigerante zero é melhor ou pior que o comum?
A resposta depende da comparação. Quando uma bebida diet substitui regularmente um refrigerante rico em açúcar, ocorre uma redução importante na ingestão de açúcares livres e calorias daquela bebida. Isso não significa, no entanto, que refrigerantes diet devam ser tratados como equivalentes à água ou consumidos sem atenção à frequência.
Também é importante evitar conclusões baseadas apenas na palavra “adoçante”, porque existem substâncias diferentes e os estudos variam muito em dose, duração e população avaliada. Na prática, vale considerar:
- qual adoçante está presente no produto;
- quanto e com que frequência a bebida é consumida;
- se ela substitui uma opção açucarada ou simplesmente aumenta o consumo de bebidas industrializadas;
- como é o restante da alimentação e o estado metabólico da pessoa.

O que já é possível concluir?
Os estudos atuais sugerem que alguns adoçantes podem produzir efeitos biológicos e que a resposta pode variar entre indivíduos. Ao mesmo tempo, as evidências ainda não justificam afirmar que refrigerantes diet provoquem alterações intestinais ou doença no fígado de maneira direta e universal. A pesquisa está justamente tentando esclarecer quais compostos, quantidades e perfis de pessoas podem ser mais relevantes.
Assim, nem demonizar o refrigerante diet nem considerá-lo metabolicamente neutro em qualquer quantidade representa bem o conhecimento disponível hoje. Para o consumo cotidiano, água continua sendo a principal opção de hidratação, enquanto bebidas adoçadas, com açúcar ou adoçantes, podem ser avaliadas dentro do conjunto da alimentação.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada, especialmente para pessoas com diabetes, alterações metabólicas ou doença hepática.








