O café aparece com frequência em estudos sobre saúde do fígado, e algumas pesquisas observacionais relacionam seu consumo regular a resultados mais favoráveis em pessoas com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD. Isso não significa, porém, que 2 ou 3 xícaras por dia reduzam necessariamente ALT, AST ou GGT nem que o café funcione como tratamento. Quando o foco são especificamente as enzimas hepáticas, os resultados são menos consistentes do que os encontrados para fibrose.
O que ALT e GGT mostram em quem tem fígado gorduroso?
ALT, AST e GGT são enzimas medidas em exames de sangue e podem se alterar quando existe agressão ou sobrecarga hepática. Em pessoas com MASLD, elas ajudam na avaliação do fígado, mas não mostram sozinhas quanto de gordura ou fibrose existe. Algumas pessoas podem ter esteatose mesmo com enzimas dentro da faixa de referência.
Por isso, uma redução da ALT ou da GGT não significa automaticamente que a doença desapareceu. O diagnóstico e o acompanhamento também podem envolver histórico clínico, fatores metabólicos, exames de imagem e métodos usados para estimar fibrose. O Tua Saúde explica mais sobre esses exames no conteúdo sobre gordura no fígado e sua avaliação.
O café realmente reduz ALT e GGT?
Estudos observacionais mais antigos sobre doença hepática encontraram associação entre maior consumo de café e valores mais baixos de enzimas como ALT e GGT. Uma revisão sistemática sobre café e doenças do fígado relatou relações favoráveis e dependentes da quantidade consumida em alguns grupos de risco.
No entanto, isso não permite concluir que tomar café faça essas enzimas caírem. Pessoas que bebem café podem diferir em vários outros aspectos, como alimentação, peso corporal, consumo de álcool, atividade física e presença de diabetes. Uma associação observada entre café e exames melhores não prova que a bebida seja a responsável pela diferença.

E as pesquisas com 2 ou 3 xícaras por dia?
A quantidade estudada varia bastante entre os trabalhos. Algumas pesquisas consideram uma ou mais xícaras por dia, enquanto outras encontram associações mais evidentes a partir de cerca de 3 xícaras. Diretriz brasileira elaborada por sociedades de endocrinologia, hepatologia e obesidade afirma que, em adultos com sobrepeso ou obesidade e MASLD, o consumo regular de 1 a 3 xícaras de café por dia pode ser considerado em relação ao risco de progressão da fibrose.
Já uma revisão sistemática publicada na revista Nutrients em 2021 encontrou principalmente uma associação entre maior consumo de café e menor gravidade da fibrose. Os próprios autores destacaram que os estudos eram observacionais, apresentavam formas diferentes de medir o consumo e não permitiam estabelecer uma quantidade ideal.
Por que os resultados sobre enzimas precisam de cautela?
Quando os pesquisadores analisam ensaios clínicos, em que o consumo de café é testado de forma mais controlada, o cenário é menos convincente. Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos em pessoas com doença hepática gordurosa não encontrou redução significativa de ALT ou AST com café ou extrato de café.
Isso ajuda a separar dois pontos diferentes: há sinais observacionais de que pessoas que tomam café regularmente podem apresentar menor risco de fibrose ou alguns marcadores hepáticos mais favoráveis, mas a evidência disponível não demonstra que começar a tomar café seja uma forma confiável de normalizar as enzimas do fígado.

O café pode fazer parte dos cuidados com MASLD?
Para quem já gosta e tolera café, a bebida pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, desde que não seja acompanhada de grandes quantidades de açúcar, xaropes ou outros ingredientes que aumentem muito o valor calórico. Também não existe necessidade de começar a tomar café exclusivamente por causa do fígado.
O controle da MASLD depende principalmente do conjunto de fatores metabólicos. Isso inclui alimentação adequada, atividade física, controle do peso quando necessário e tratamento de diabetes, triglicerídeos, colesterol e pressão alta. Café pode ser apenas um elemento complementar, e não substitui essas medidas nem medicamentos prescritos.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação médica. Alterações persistentes em ALT, AST ou GGT, assim como diagnóstico de MASLD, devem ser acompanhadas por um profissional de saúde para investigar a causa e avaliar o risco de fibrose.









