Por que algumas pessoas passam dos 110 anos mantendo lucidez e independência enquanto a maioria não chega perto dessa idade? Pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP estão tentando responder a essa pergunta analisando brasileiros excepcionalmente longevos. O objetivo é procurar variantes genéticas e outros mecanismos biológicos que possam contribuir para a resistência a doenças e para um envelhecimento mais saudável, mas os próprios estudos deixam claro que ainda não existe um “gene da longevidade” nem uma receita capaz de garantir vida longa.
Quem são os supercentenários estudados pela USP?
Supercentenário é o nome dado a quem alcança pelo menos 110 anos. Em um trabalho divulgado em 2026, a equipe do Genoma USP descreveu uma coorte nacional com mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários validados. Alguns permaneciam lúcidos e independentes mesmo em idades extremamente avançadas.
O projeto do Genoma USP sobre supercentenários brasileiros chama atenção também pela diversidade genética da população do país. Como grande parte das pesquisas de longevidade foi realizada em populações menos miscigenadas, estudar brasileiros pode revelar variantes que ficaram pouco representadas em bancos genômicos internacionais.
O que os pesquisadores procuram no DNA dessas pessoas?
A equipe realiza sequenciamento genético e pretende comparar características biológicas dos participantes para identificar variantes que possam favorecer a chamada resiliência, ou seja, a capacidade de manter o organismo funcionando apesar do envelhecimento. Também estão sendo estudados o sistema imunológico e mecanismos celulares relacionados à manutenção e ao reparo das células.
Alguns participantes chamaram a atenção por terem chegado a idades extremas sem determinadas doenças comuns do envelhecimento. Isso não demonstra que estejam protegidos por um único gene. A ideia é investigar se determinadas combinações de variantes genéticas podem ajudar a explicar parte dessa resistência e depois testar como elas funcionam nas células.

Já existe um gene que explique por que alguém vive tanto?
Não. A longevidade extrema é considerada uma característica complexa e provavelmente depende de muitos genes, cada um contribuindo com uma pequena parcela, além de fatores ambientais e comportamentais. Uma revisão e metanálise de variantes associadas à longevidade excepcional encontrou associações com genes como APOE e FOXO3, mas destacou que os efeitos individuais das variantes são modestos.
Por isso, encontrar uma variante mais frequente entre centenários não significa que ela faça alguém viver até os 100 ou 110 anos. Os cientistas precisam verificar se a associação aparece em outras populações e compreender qual efeito biológico aquela alteração realmente produz.
O que pode ajudar alguém a envelhecer com mais saúde?
Mesmo que a genética tenha importância especial entre pessoas que alcançam idades extremas, isso não torna os hábitos cotidianos irrelevantes. Para a população em geral, fatores modificáveis continuam sendo fundamentais para reduzir o risco de doenças que podem encurtar a vida.
- não fumar;
- praticar atividade física regularmente;
- manter uma alimentação equilibrada;
- dormir adequadamente;
- controlar pressão alta, diabetes e colesterol;
- manter vínculos sociais e acompanhamento de saúde.
O conteúdo do Tua Saúde sobre hábitos relacionados à longevidade e ao envelhecimento saudável reforça que viver mais envolve uma combinação de saúde física, autonomia e bem-estar, e não apenas alcançar uma idade elevada.

Estudar pessoas de 110 anos pode criar uma receita para viver mais?
Ainda não. Os resultados do grupo brasileiro são em grande parte uma agenda de pesquisa em andamento, e várias hipóteses precisam ser testadas antes de qualquer aplicação prática. Descobrir mecanismos que protegem células ou favorecem um sistema imunológico mais resiliente pode, no futuro, ajudar a compreender doenças relacionadas ao envelhecimento, mas isso é diferente de encontrar uma fórmula para prolongar a vida.
O principal valor dos supercentenários para a ciência é funcionar como um modelo raro de envelhecimento extremo. Ao estudar por que alguns deles permanecem saudáveis por tanto tempo, os pesquisadores esperam entender melhor como preservar saúde e capacidade funcional durante o envelhecimento, e não simplesmente aumentar o número de anos vividos.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico ou de outro profissional de saúde.









