Os antipsicóticos de segunda geração, como olanzapina, quetiapina e risperidona, podem elevar o açúcar no sangue e o peso, e um novo estudo mostra que essas mudanças são mais rápidas nos primeiros 90 dias de uso. Por isso, glicemia e peso devem ser avaliados antes de começar o tratamento e repetidos nos primeiros meses. O remédio não deve ser interrompido por conta própria, porque é fundamental para controlar doenças como esquizofrenia e transtorno bipolar.
Por que os antipsicóticos afetam o açúcar no sangue?
Os antipsicóticos de segunda geração agem em receptores do cérebro ligados ao apetite e à saciedade, o que favorece o ganho de peso. Alguns também interferem diretamente na produção e na ação da insulina, hormônio que leva a glicose do sangue para as células.
Esse efeito pode aparecer mesmo sem grande aumento de peso. Por isso, a balança sozinha não é suficiente para identificar quem está desenvolvendo alterações na glicose.

O que um novo estudo mostrou sobre os primeiros 90 dias?
O momento em que o risco é maior foi analisado com dados de milhares de pacientes. Segundo uma pesquisa publicada na revista The Lancet Psychiatry em outubro de 2026, cientistas da University College London avaliaram registros de 96.849 adultos de 18 a 59 anos com doenças mentais graves na Inglaterra. Todos começaram a usar olanzapina, quetiapina, risperidona ou aripiprazol entre 2000 e 2023.
Nos três primeiros meses, a hemoglobina glicada subiu 14 vezes mais rápido após o início do antipsicótico, e o peso, nove vezes mais rápido do que antes do tratamento. As mudanças continuaram depois, mas em ritmo menor, ao longo de até dois anos.
Quem tem maior risco?
O estudo identificou grupos que merecem atenção redobrada:
- Usuários de olanzapina, que teve o maior aumento precoce de glicose e de peso entre os quatro remédios;
- Mulheres, cuja hemoglobina glicada subiu cerca de 24 vezes mais rápido no início do tratamento;
- Pessoas com pré-diabetes, das quais cerca de 19% desenvolveram diabetes tipo 2 em dois anos, contra 3% entre quem tinha glicemia normal;
- Pessoas com excesso de peso, sedentarismo ou histórico familiar de diabetes.
Quais sinais indicam que a glicose pode estar alta?
Muitas vezes o aumento da glicose não causa sintomas no início, o que reforça a importância dos exames. Quando aparecem, os sinais mais comuns são sede excessiva, urinar com frequência, cansaço, visão embaçada e fome aumentada.
Para reconhecer esses sinais cedo, vale conhecer os primeiros sintomas da diabetes e comunicar qualquer mudança ao médico.

Que exames fazer durante o tratamento?
As recomendações de acompanhamento metabólico costumam incluir:
- Peso, circunferência da cintura e pressão arterial antes de iniciar o remédio;
- Glicemia de jejum, hemoglobina glicada e perfil de colesterol no início;
- Repetição das medidas por volta de 6 e 12 semanas de uso;
- Reavaliação anual depois do primeiro ano.
Alimentação equilibrada e atividade física regular desde o início ajudam a reduzir o ganho de peso.
O tratamento não deve ser interrompido
Os autores destacam que os antipsicóticos são tratamentos valiosos e que o estudo não deve servir sozinho para escolher entre um remédio e outro. Parar a medicação por medo do diabetes pode levar a crises graves. Se a glicose ou o peso subirem, o psiquiatra pode ajustar a dose, trocar o remédio ou indicar tratamento específico para o metabolismo, sempre em conjunto com o clínico geral ou o endocrinologista.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico. Não suspenda nem altere a dose de antipsicóticos sem conversar com o psiquiatra responsável.









