Um grande estudo mostrou que a semaglutida 2,4 mg reduziu em cerca de 20% o risco relativo de um conjunto de eventos cardiovasculares graves em pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular já estabelecida e sem diabetes. O resultado não significa uma redução de 20 pontos percentuais nem que o medicamento previna individualmente 20% dos infartos ou AVCs. O benefício foi observado em um desfecho combinado que incluía morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal.
O que o estudo SELECT descobriu?
O SELECT foi um ensaio clínico randomizado que acompanhou 17.604 adultos com 45 anos ou mais, índice de massa corporal de pelo menos 27 kg/m² e doença cardiovascular preexistente. Nenhum participante tinha diabetes. Metade recebeu semaglutida subcutânea na dose de 2,4 mg uma vez por semana e a outra metade recebeu placebo, além dos cuidados médicos habituais.
Os resultados foram publicados em 2023 no New England Journal of Medicine e estão disponíveis no PubMed sobre o estudo SELECT. Durante um acompanhamento médio de aproximadamente 40 meses, morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal ocorreram em 6,5% das pessoas que receberam semaglutida e em 8,0% das que receberam placebo.
O que significa uma redução de 20% no risco?
A diferença é mais fácil de entender quando risco relativo e risco absoluto são separados. O valor de 20% corresponde à redução relativa do risco do desfecho cardiovascular combinado. No estudo, a ocorrência caiu de 8,0% no grupo placebo para 6,5% no grupo que recebeu semaglutida.
Em termos absolutos, isso representa uma diferença de aproximadamente 1,5 ponto percentual durante o período estudado. Portanto, dizer simplesmente que o medicamento “reduz em 20% o risco de infarto e AVC” pode dar uma impressão maior do efeito. Além disso, quando avaliados separadamente, os componentes do desfecho não apresentaram todos a mesma magnitude de redução.

Quem participou da pesquisa?
Os resultados não devem ser aplicados automaticamente a qualquer pessoa que queira emagrecer. Os participantes tinham sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, como histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica, mas não apresentavam diabetes.
Por isso, o SELECT avaliou uma população que já possuía risco cardiovascular elevado. O estudo também não significa que a semaglutida substitua controle da pressão arterial, tratamento do colesterol, atividade física, alimentação adequada, abandono do cigarro ou outros medicamentos prescritos para prevenir novos eventos cardiovasculares.
Semaglutida é somente um medicamento para emagrecer?
A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Entre seus efeitos estão maior saciedade e redução da ingestão alimentar, o que favorece a perda de peso. O Wegovy contém semaglutida e é utilizado no tratamento da obesidade ou do sobrepeso em situações específicas, sempre associado a mudanças no estilo de vida.
O SELECT mostrou que, no grupo estudado, os efeitos do tratamento foram além da redução de peso e alcançaram um desfecho cardiovascular importante. No entanto, os pesquisadores não estabeleceram que todo o benefício cardiovascular ocorreu exclusivamente devido ao emagrecimento, pois diferentes mecanismos podem estar envolvidos.

O resultado significa que qualquer pessoa com obesidade deve usar semaglutida?
Não. Semaglutida é um medicamento de prescrição e precisa de avaliação e acompanhamento médico. A indicação depende do estado de saúde, peso, doenças associadas, medicamentos utilizados e possíveis contraindicações. Náusea, vômitos, diarreia e outros efeitos gastrointestinais podem ocorrer durante o tratamento.
No SELECT, efeitos adversos levaram à interrupção definitiva do tratamento em 16,6% dos participantes que receberam semaglutida, contra 8,2% no grupo placebo. Esse dado reforça que o resultado cardiovascular favorável não transforma o medicamento em uma opção adequada para todas as pessoas nem justifica seu uso por conta própria.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Semaglutida deve ser utilizada somente com prescrição e acompanhamento profissional, e o tratamento cardiovascular não deve ser iniciado, interrompido ou modificado sem orientação médica.








