Chegar aos 75 anos não significa que uma pessoa deva começar ou evitar uma estatina automaticamente. Esses medicamentos reduzem o colesterol LDL e podem diminuir o risco de infarto e AVC, mas o benefício em idosos depende principalmente do risco cardiovascular individual, da presença de outras doenças, da fragilidade, da expectativa de vida e dos medicamentos que já são utilizados. Por isso, a decisão precisa ser personalizada.
Por que a decisão muda depois dos 75 anos?
O risco cardiovascular aumenta com a idade, mas o envelhecimento também traz situações que tornam a prescrição mais complexa. Uma pessoa de 78 anos ativa e independente, por exemplo, pode ter um perfil muito diferente de outra da mesma idade com fragilidade importante, várias doenças crônicas e uso de muitos medicamentos.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, recomenda que, após os 75 anos, as doses dos medicamentos para reduzir colesterol sejam individualizadas considerando fragilidade, comorbidades, expectativa de vida e polifarmácia.
Quem tende a ter maior benefício com as estatinas?
A avaliação começa pelo risco de desenvolver ou voltar a apresentar uma doença cardiovascular. Em idosos que já tiveram infarto, AVC de origem aterosclerótica ou outra manifestação de doença cardiovascular, a indicação de reduzir o LDL costuma ser mais clara porque o risco de novos eventos é elevado.
A diretriz brasileira recomenda tratamento para idosos classificados como de alto ou muito alto risco cardiovascular e estabelece metas semelhantes às utilizadas em adultos mais jovens. Entre os elementos que podem aumentar esse risco estão:
- doença cardiovascular aterosclerótica já diagnosticada;
- diabetes;
- hipertensão arterial;
- colesterol LDL muito elevado;
- tabagismo;
- doença renal crônica;
- combinação de vários fatores de risco.
As estatinas, como sinvastatina, atorvastatina e rosuvastatina, reduzem a produção de colesterol pelo fígado e são a primeira opção de tratamento hipolipemiante para muitas pessoas com indicação clínica.

E quando a pessoa nunca teve infarto ou AVC?
Nesse cenário, chamado prevenção primária, a decisão pode ser mais difícil, sobretudo acima dos 75 anos. A própria diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca que as evidências são menos robustas nesse grupo do que em pessoas mais jovens ou em pacientes que já apresentam doença cardiovascular estabelecida.
Estudos com idosos mostraram redução de eventos vasculares em alguns grupos tratados com estatinas, incluindo participantes acima de 65 ou 70 anos. Porém, a diretriz também cita que há insuficiência de evidências para indicar o início do tratamento de forma generalizada em todas as pessoas acima de 75 anos sem doença cardiovascular prévia. O número da idade, sozinho, não define a indicação.
Por que outras doenças e medicamentos entram na conta?
Idosos frequentemente utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo, situação conhecida como polifarmácia. Isso aumenta a possibilidade de interações e pode exigir escolha cuidadosa da estatina e da dose. Alterações renais, doenças hepáticas e outras condições também podem interferir na forma como o organismo metaboliza os medicamentos.
Além disso, sintomas musculares podem ocorrer durante o tratamento, embora nem toda dor muscular em uma pessoa que usa estatina seja provocada pelo remédio. Antes de reduzir a dose ou interromper o tratamento, o médico pode investigar outras causas e avaliar alternativas.
Alguns aspectos que costumam entrar nessa decisão são:
- grau de fragilidade e independência funcional;
- doenças cardiovasculares anteriores;
- diabetes, hipertensão e doença renal;
- níveis de colesterol e risco cardiovascular global;
- quantidade de medicamentos utilizados;
- possibilidade de interações medicamentosas;
- efeitos adversos prévios e tolerância ao tratamento.

Quem já toma estatina deve parar ao completar 75 anos?
Não. Completar determinada idade não é motivo, por si só, para suspender um tratamento que vinha sendo bem tolerado e tinha indicação adequada. Da mesma forma, colesterol controlado durante o tratamento não significa necessariamente que o medicamento deixou de ser necessário, pois a melhora pode ser justamente consequência da estatina.
A decisão de iniciar, manter, ajustar ou eventualmente interromper o medicamento deve ser revista periodicamente conforme o estado de saúde muda. Em idosos, o objetivo não é simplesmente baixar um número no exame, mas equilibrar redução do risco cardiovascular, segurança e benefício esperado para aquela pessoa.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Estatinas não devem ser iniciadas, suspensas ou ter a dose modificada sem orientação profissional, especialmente em pessoas idosas que utilizam vários medicamentos ou apresentam outras doenças crônicas.








