A vontade intensa e persistente de comer terra, sabão, gelo, giz ou outras substâncias sem valor nutritivo pode parecer estranha, mas é mais comum do que se imagina. Esse comportamento tem nome na medicina: síndrome de pica, também chamada de alotriofagia ou picamalácia. Longe de ser apenas uma “mania”, essa compulsão frequentemente esconde um problema de saúde subjacente, especialmente a deficiência de ferro no organismo. Saber reconhecer os sinais e entender o que fazer pode evitar complicações sérias.
O que é a síndrome de pica e por que ela acontece
A síndrome de pica é classificada como um transtorno alimentar caracterizado pela ingestão repetida de substâncias não nutritivas por pelo menos um mês. Para ser considerado pica, o comportamento deve ocorrer em uma idade em que a pessoa já compreende que aquele item não deveria ser ingerido. A condição recebe esse nome em referência à pega-rabuda (Pica pica), uma ave conhecida por bicar e engolir objetos variados.
As causas ainda não são completamente compreendidas, mas a deficiência de ferro aparece como o principal fator associado. Estudos indicam que a falta do mineral em certas áreas do cérebro pode alterar o sistema de recompensa e gerar desejos por substâncias incomuns. Condições psiquiátricas como transtorno do espectro autista, deficiência intelectual, esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo também podem estar envolvidas.

Principais substâncias consumidas
As formas de pica variam conforme a substância ingerida e recebem nomes específicos na literatura médica. Algumas são relativamente inofensivas, enquanto outras representam riscos graves à saúde:
- Geofagia: consumo de terra, argila ou barro, podendo causar infecções parasitárias e intoxicação por metais pesados
- Pagofagia: mastigar gelo compulsivamente, a forma mais comum e frequentemente associada à anemia
- Amilofagia: ingestão de amido de milho, goma ou polvilho
- Saponofagia: consumo de sabão ou detergente, com risco de intoxicação química
- Litofagia: ingestão de pedras ou cascalho, podendo causar obstrução intestinal

Relação comprovada com a deficiência de ferro
A conexão entre pica e anemia ferropriva foi documentada em diversas pesquisas. Segundo a revisão sistemática “The Association Between Pica and Iron-Deficiency Anemia”, publicada na revista Cureus, em todos os 20 estudos analisados, a identificação dos sintomas de pica permitiu o tratamento da deficiência de ferro e levou à resolução completa do comportamento. A terapia com ferro geralmente elimina a compulsão em poucas semanas. Estima-se que até 50% dos pacientes com anemia ferropriva apresentem algum grau de pica, e cerca de 27% das gestantes relatam esses comportamentos durante a gravidez.
O que fazer ao perceber esses sintomas
Se você ou alguém próximo está experimentando desejos incontroláveis por substâncias não alimentares, algumas medidas são importantes. Primeiro, evite ingerir a substância desejada, especialmente se for tóxica (como sabão, tinta ou produtos químicos). Segundo, procure atendimento médico para investigação. O clínico geral pode solicitar exames de sangue para verificar hemoglobina, ferritina sérica e outros marcadores de deficiência nutricional. Se houver suspeita de componente psiquiátrico, o encaminhamento para avaliação especializada pode ser necessário.
O tratamento varia conforme a causa identificada. Quando há deficiência de ferro, a suplementação oral ou intravenosa costuma resolver o problema. Se o transtorno estiver relacionado a condições psiquiátricas, pode ser necessária terapia comportamental e, em alguns casos, medicamentos. Durante a gravidez, a investigação deve ser imediata, pois a ingestão de substâncias tóxicas pode atravessar a placenta e afetar o bebê.
Riscos de ignorar o problema
Não tratar a síndrome de pica pode levar a complicações sérias. A ingestão de terra expõe a pessoa a parasitas intestinais e bactérias. Consumir sabão ou produtos químicos pode causar intoxicação aguda. Objetos duros como pedras ou metal podem provocar obstrução gastrointestinal, perfuração de órgãos ou danos aos dentes. Além disso, as próprias substâncias ingeridas podem prejudicar a absorção de nutrientes, agravando a deficiência que originou o comportamento. Para mais informações sobre o transtorno, consulte o Tua Saúde.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. Se você apresenta compulsão por substâncias não alimentares, consulte um profissional de saúde.









