O desejo intenso e persistente de comer substâncias sem valor nutricional como terra, tijolo, gelo, sabão ou giz pode parecer estranho, mas é mais comum do que se imagina. Esse comportamento tem nome na medicina: síndrome de pica. Longe de ser apenas uma “mania”, a vontade de mastigar itens não comestíveis frequentemente esconde um problema de saúde subjacente, especialmente a deficiência de ferro no organismo. Entender essa relação pode ajudar a identificar sinais de alerta antes que a condição se agrave.
O que é a síndrome de pica
A síndrome de pica, também chamada de alotriofagia ou picamalácia, é um transtorno alimentar caracterizado pelo consumo compulsivo de substâncias que não são alimentos. Para ser considerado pica, o comportamento deve persistir por pelo menos um mês e ocorrer em uma idade em que a pessoa já compreende que aquele item não deveria ser ingerido. As formas mais conhecidas incluem a geofagia (comer terra ou argila), a pagofagia (mastigar gelo compulsivamente) e a ingestão de materiais como papel, cabelo, sabão, cinzas e pedaços de tijolo.
A conexão entre ferro e o cérebro
A deficiência de ferro está fortemente associada ao desenvolvimento da síndrome de pica, embora o mecanismo exato ainda não seja totalmente compreendido pela ciência. Pesquisadores sugerem que a falta de ferro em determinadas áreas cerebrais pode alterar enzimas que regulam o apetite e o comportamento alimentar. O ferro atua como cofator para a dopamina no cérebro, especialmente no hipocampo, e sua carência pode modificar a forma como o organismo percebe e responde aos estímulos de fome. Isso explica por que muitas pessoas com anemia ferropriva desenvolvem desejos por substâncias que não oferecem qualquer benefício nutricional.

Estudo confirma que reposição de ferro resolve o comportamento
A relação entre pica e deficiência de ferro foi amplamente documentada em pesquisas científicas. Segundo a revisão “Pica as a manifestation of iron deficiency”, publicada no periódico Expert Review of Hematology, gestantes e pré-adolescentes apresentam maior risco de desenvolver o comportamento. O estudo destaca que a absorção de ferro fica prejudicada na presença de substâncias não nutritivas e que a terapia com ferro geralmente cura o comportamento de pica. Os pesquisadores identificaram duas formas distintas: uma causada diretamente pela falta de ferro no cérebro e outra mais influenciada por fatores culturais, predominantemente a geofagia.
Quem está mais vulnerável
Alguns grupos apresentam maior probabilidade de desenvolver a síndrome de pica:
- Gestantes: a demanda aumentada por ferro durante a gravidez eleva o risco de deficiência, e estima-se que cerca de 27% das grávidas apresentem comportamentos de pica
- Crianças: especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade nutricional ou com baixa supervisão alimentar
- Pessoas com anemia ferropriva: até 50% dos pacientes com essa condição podem relatar desejos por substâncias não alimentares
- Indivíduos com transtornos mentais: condições como autismo, deficiência intelectual, TOC e esquizofrenia podem estar associadas ao comportamento

Riscos e sinais que merecem atenção
Ceder à vontade de ingerir substâncias não comestíveis pode trazer consequências graves para a saúde. Terra e argila aumentam o risco de infecções parasitárias e prejudicam a absorção de nutrientes. Objetos duros como pedras e tijolos podem causar obstruções intestinais e lesões no trato digestivo. Materiais tóxicos como tinta, esmalte ou produtos de limpeza podem provocar intoxicação. Se você sente vontade persistente de mastigar ou engolir itens não alimentares, esse pode ser um sinal de que seu corpo está pedindo ajuda. Para mais informações sobre a condição, confira o conteúdo do Tua Saúde sobre síndrome de pica.
Diante de sintomas persistentes, é fundamental buscar avaliação médica para investigar possíveis deficiências nutricionais e receber orientação adequada sobre o tratamento.
Aviso: Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um médico ou profissional de saúde qualificado. Consulte sempre um especialista para orientações específicas sobre sua condição.









