Muitos adultos com TDAH passam anos ouvindo que têm insônia e testando remédios que pouco resolvem. O problema costuma ser outro: o relógio biológico funciona atrasado, e o corpo só recebe o sinal de dormir bem depois do horário socialmente esperado. Isso explica por que a pessoa vira a noite acordada, não sente sono às 23 horas e depois enfrenta manhãs devastadoras, mesmo tendo feito tudo o que recomendam para dormir melhor.
O que é o atraso de fase do sono?
O atraso de fase é um transtorno do ritmo circadiano em que o ciclo de sono e vigília acontece deslocado para mais tarde. A pessoa adormece com naturalidade apenas de madrugada e acordaria bem se pudesse dormir até mais tarde.
O sono em si não é ruim nem fragmentado. O que está fora de lugar é o horário em que o organismo se prepara para dormir, e não a capacidade de dormir.
Por que isso não é insônia comum?
Na insônia clássica, a pessoa quer dormir, tem sono e mesmo assim não consegue, ou acorda várias vezes durante a noite. No atraso de fase, o sono simplesmente ainda não chegou.
Essa diferença muda o tratamento por completo. Confundir os dois quadros é uma das razões pelas quais quem convive com os sintomas de TDAH não melhora com as orientações habituais para insônia.

Quais sinais podem indicar atraso de fase?
Algumas características ajudam a diferenciar esse padrão de uma dificuldade comum para dormir, e vale observar:
- Ausência de sono no horário desejado, sem sensação de cansaço ao deitar;
- Adormecer com facilidade quando é tarde, geralmente entre 2 e 4 horas da manhã;
- Sono de boa qualidade e contínuo, desde que o horário seja respeitado;
- Dificuldade intensa para acordar cedo, com vários alarmes e sensação de ressaca;
- Melhora nítida em férias e fins de semana, quando não há horário obrigatório;
- Pico de energia e concentração à noite, justamente quando deveria desacelerar;
- Padrão presente desde a adolescência, e não iniciado em um período específico de estresse.
O que pode ajudar a antecipar o relógio biológico?
O objetivo não é forçar o sono, e sim deslocar o ritmo interno aos poucos, com estratégias que devem ser conversadas com o médico:
- Exposição à luz natural logo ao acordar, de preferência nos primeiros 30 minutos do dia;
- Redução da luz intensa e das telas nas horas que antecedem o horário-alvo de dormir;
- Antecipação gradual do horário de deitar, em pequenos intervalos por semana;
- Manutenção do mesmo horário de acordar também nos fins de semana;
- Cuidado com cafeína no fim da tarde e com atividades muito estimulantes à noite;
- Avaliação médica sobre o uso de melatonina, que depende de dose e horário individualizados.

O que um ensaio clínico mostra sobre esse padrão?
A relação entre TDAH e atraso do ritmo circadiano já foi testada em ensaio clínico com adultos acompanhados em casa. Segundo o estudo Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Delayed Sleep Phase Syndrome in Adults, publicado na revista Journal of Biological Rhythms por pesquisadores dos Países Baixos, a síndrome do atraso de fase é o distúrbio de sono mais comum em adultos com TDAH.
Os autores relatam que cerca de 78% desses adultos apresentam ritmo circadiano atrasado, confirmado por marcadores biológicos, e que a antecipação desse ritmo melhorou tanto o sono quanto os sintomas do transtorno. Isso reforça que ajustar o horário é mais eficaz do que apenas tentar dormir mais cedo.
Se você reconhece esse padrão e ele afeta o trabalho ou o humor, procure um médico do sono, psiquiatra ou neurologista. Entender melhor os sintomas de TDAH em adultos e as causas da dificuldade para dormir ajuda na conversa, mas somente a avaliação profissional pode identificar o quadro e indicar o tratamento adequado.
Este conteúdo tem caráter apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento indicado por um profissional de saúde qualificado.









