Uma proteína desenvolvida por pesquisadores brasileiros pode mudar completamente o prognóstico de pessoas que sofreram lesão na medula espinhal, condição que até hoje não tem tratamento capaz de reverter o dano. A polilaminina é uma versão produzida em laboratório de uma proteína natural do corpo humano, a laminina, e vem sendo estudada há quase 30 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os resultados iniciais são tão incomuns que a substância ganhou atenção mundial e já entrou na fase de testes clínicos autorizados pela Anvisa. Entenda o que se sabe até agora e o que ainda precisa ser comprovado.
O que é a polilaminina e como ela foi descoberta
A polilaminina é uma versão organizada e estabilizada em laboratório da laminina, proteína presente no organismo humano durante o desenvolvimento embrionário e que ajuda os neurônios a se conectarem. Com o tempo, essa proteína se torna rara no corpo adulto, especialmente em regiões lesionadas do sistema nervoso. A substância foi criada pela bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, a partir de proteínas extraídas de placentas humanas, material biologicamente rico nesse componente e que normalmente seria descartado após o parto.
A descoberta aconteceu de forma acidental, quando os pesquisadores observaram que as moléculas de laminina se agrupavam espontaneamente em determinadas condições de acidez, formando uma estrutura mais estável e com propriedades regenerativas superiores à proteína isolada. O laboratório Cristália firmou parceria com a equipe da UFRJ para produzir a polilaminina em escala e viabilizar os testes clínicos.

Como a polilaminina age na lesão da medula espinhal
Quando ocorre um trauma na medula espinhal, os axônios — os “fios” responsáveis por transmitir os comandos do cérebro ao corpo — são rompidos. O organismo reage com inflamação e, em seguida, forma uma cicatriz que impede que essas conexões se refaçam. A polilaminina atua criando uma espécie de andaime biológico no local da lesão, oferecendo suporte físico e químico para que os nervos cresçam de forma organizada e tentem restabelecer a comunicação entre o cérebro e o corpo.
Além de orientar o crescimento das fibras nervosas, a substância também age reduzindo a inflamação e limitando a morte celular que ocorre nas horas seguintes ao trauma. Os resultados são considerados mais expressivos quando a aplicação acontece em até 72 horas após o acidente, enquanto o tecido ainda está em fase ativa de resposta inflamatória e antes que a cicatriz esteja completamente formada.
O que um estudo recente revelou sobre os resultados em animais
Antes de avançar para os testes em humanos, a pesquisa reuniu dados experimentais importantes. Segundo o estudo clínico veterinário A laminin-based therapy for dogs with chronic spinal cord injury, publicado em 2025 na revista Frontiers in Veterinary Science, seis cães paraplégicos com lesões crônicas que não apresentavam melhora mesmo após cirurgia e meses de fisioterapia receberam a polilaminina. Após a aplicação, quatro dos animais voltaram a dar passos e apresentaram melhora expressiva na marcha, dois tiveram avanços mais discretos, e não foram registrados efeitos adversos graves durante os seis meses de acompanhamento. Os próprios autores ressaltam que o tamanho reduzido da amostra limita conclusões definitivas, mas os dados de segurança e a melhora funcional indicam um potencial terapêutico relevante.
O estágio atual da pesquisa em humanos
Em humanos, um estudo-piloto com oito pacientes que sofreram lesões completas da medula espinhal foi divulgado como pré-print no medRxiv em 2024. Seis dos oito participantes sobreviveram e todos demonstraram algum grau de contração muscular voluntária abaixo do nível da lesão, resultado considerado incomum nesse tipo de quadro. Entre os casos documentados, pacientes que não tinham perspectiva de recuperação relataram retomada parcial de movimentos após a aplicação combinada com fisioterapia.
Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou oficialmente o início da fase 1 dos ensaios clínicos regulatórios, que avaliará a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesões medulares agudas completas. Vale destacar que os dados em humanos ainda não passaram por revisão por pares e que os resultados precisam ser confirmados em estudos maiores e controlados antes de qualquer conclusão definitiva.
O que ainda precisa ser comprovado antes do uso amplo
A polilaminina representa um avanço científico genuinamente promissor, mas a comunidade médica pede cautela. Cada lesão medular é única e envolve variáveis como nível da lesão, extensão do dano, idade do paciente e tempo até a intervenção, o que dificulta a comparação entre casos. Para que o medicamento chegue aos hospitais e ao SUS, ainda será necessário concluir todas as fases dos ensaios clínicos, confirmar a eficácia em amostras maiores e receber o registro sanitário definitivo da Anvisa.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra cerca de 8 mil novos casos de lesão medular por ano, e a polilaminina pode representar uma alternativa inédita para um público que hoje não conta com nenhum tratamento medicamentoso capaz de reverter o dano. A jornada até a aprovação pode levar anos, mas os avanços já registrados colocam a ciência brasileira em posição de destaque no cenário global. Antes de qualquer expectativa sobre o tratamento, pacientes e familiares devem buscar orientação de médicos especialistas em lesão medular, que poderão esclarecer o estágio atual da pesquisa e as alternativas terapêuticas disponíveis dentro dos protocolos vigentes.









