Em dezembro de 2025, a revista Nature — uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo — divulgou sua lista anual com os dez nomes que mais influenciaram a ciência no ano. Entre gigantes da genética, da astronomia e da inteligência artificial, aparece um brasileiro: Luciano Andrade Moreira, entomologista e pesquisador da Fiocruz Minas. Sua arma contra a dengue não é um veneno, não é um inseticida e não extermina nenhuma espécie. É uma bactéria tão pequena quanto poderosa — e ela pode mudar o futuro da saúde pública tropical.
A ideia que começou na Austrália
A história do Método Wolbachia começa no pós-doutorado de Luciano Moreira, em 2008, quando ele integrava uma equipe de pesquisadores na Universidade de Monash, na Austrália. O grupo investigava a Wolbachia, uma bactéria naturalmente presente em cerca de 60% dos insetos do mundo — inclusive na mosquinha da banana. A questão era: e se ela fosse introduzida dentro do Aedes aegypti? A resposta mudou tudo. Com a bactéria instalada nas células do mosquito, os vírus da dengue, zika e chikungunya praticamente não conseguem se replicar. Em 2009, Moreira foi coautor do artigo que demonstrou esse efeito pela primeira vez. Em 2011, ele já estava de volta ao Brasil, negociando com o Ministério da Saúde para transformar uma descoberta acadêmica em política pública.

Como o Método Wolbachia funciona na prática
O método não elimina o mosquito — ele o reprograma biologicamente. Os ovos do Aedes aegypti são infectados com a Wolbachia em laboratório. Quando os mosquitos adultos são soltos nas cidades, ocorre algo decisivo: as fêmeas infectadas transmitem a bactéria para todos os seus descendentes. Com isso, a proteção se espalha sozinha pelas gerações seguintes, sem necessidade de novas solturas contínuas. Os machos infectados, por sua vez, ao cruzar com fêmeas sem a bactéria, geram ovos inviáveis — o que ajuda a reduzir a população local. Os resultados nas cidades onde o método foi implementado incluem:
- Niterói (RJ): queda de até 89% nos casos de dengue, sendo a primeira cidade do Brasil com cobertura total pelo método
- Niterói (2024): redução de 69,4% na dengue, 56,3% na chikungunya e 37% na zika, conforme dados do Ministério da Saúde
- Cidades com implantação ativa: 16 municípios brasileiros, com expansão em curso para Brasília, Joinville, Blumenau e outras
O que diz a ciência sobre a eficácia
Os resultados não dependem apenas de estudos observacionais. Um ensaio clínico randomizado controlado (RCT) realizado em Yogyakarta, na Indonésia — nos mesmos moldes do que está em curso em Belo Horizonte — foi publicado no The New England Journal of Medicine e mostrou redução de 77% nos casos de dengue e de 86% nas hospitalizações nas áreas onde os mosquitos com Wolbachia foram liberados. Já em 2025, um artigo publicado na The Lancet analisou cidades brasileiras e apontou redução média de 63% dos casos nas regiões cobertas pelo método. Você pode acessar os dados completos sobre o programa no portal da Fiocruz.
A fábrica de mosquitos que virou referência mundial
Em julho de 2025, Luciano Moreira inaugurou em Curitiba a maior fábrica de mosquitos do mundo. A instalação, fruto de uma parceria entre a Fiocruz, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e o World Mosquito Program (WMP), produz mais de 80 milhões de ovos de Aedes aegypti com Wolbachia por semana. Os insetos — apelidados de wolbitos — são distribuídos para as cidades participantes do programa nacional. Segundo a própria revista Nature, o trabalho de Moreira representa um caso raro em que uma inovação de laboratório se converte rapidamente em política pública com impacto direto na vida das pessoas.

Por que esse avanço importa para você
O Brasil registrou recordes históricos de dengue nos últimos anos, com mais de 4 milhões de casos notificados em 2024. Enquanto a vacinação ainda enfrenta limitações de oferta, o Método Wolbachia se apresenta como uma tecnologia complementar, sustentável e de baixo custo. A expectativa do Ministério da Saúde é que, para cada R$ 1 investido, a economia em medicamentos, internações e tratamentos gire entre R$ 43 e R$ 549, segundo projeções da Fiocruz. O método não substitui as medidas individuais de combate ao mosquito — eliminar água parada continua sendo fundamental. Mas, com uma bactéria que viaja de geração em geração, o Brasil pode estar mais perto de controlar, de vez, um dos maiores problemas de saúde pública do país.
Este artigo tem caráter informativo. Caso você apresente sintomas de dengue, zika ou chikungunya — como febre alta, dores no corpo e manchas na pele —, procure atendimento médico imediatamente.









