Solidão e desejo de ser mais magra ajudaram a explicar estatisticamente parte da maior frequência de sintomas depressivos e ideação suicida observada entre meninas adolescentes em um estudo longitudinal realizado no Japão. Os resultados não significam que esses fatores provoquem depressão ou pensamentos suicidas sozinhos, mas reforçam que relações sociais, imagem corporal e saúde mental podem estar conectadas durante a adolescência.
O que o estudo encontrou entre meninas e meninos?
O estudo acompanhou 3.171 participantes do Tokyo Teen Cohort, avaliados repetidamente aos 12, 14 e 16 anos. Aos 16 anos, sintomas depressivos foram identificados em 15,9% das meninas e 8,2% dos meninos. A ideação suicida foi relatada por 29,8% das meninas e 18,1% dos meninos.
Essa diferença não significa que ser menina determine o desenvolvimento de depressão na adolescência. Saúde mental resulta de uma combinação de fatores individuais, familiares, sociais e ambientais, e os pesquisadores buscaram justamente investigar caminhos que poderiam ajudar a compreender a diferença observada.
Qual foi o papel da solidão e do desejo de emagrecer?
Aos 14 anos, 13,2% das meninas relataram solidão, contra 6% dos meninos. O desejo de ser mais magra apareceu em 41,4% das meninas e 11,1% dos meninos. Os pesquisadores analisaram se essas diferenças poderiam funcionar como caminhos intermediários até os resultados de saúde mental medidos dois anos depois.
No artigo Loneliness and desire for thinness explain sex differences in adolescent internalizing problems, publicado em 2026 na Nature Human Behaviour, a análise estimou que solidão e desejo de emagrecer aos 14 anos correspondiam a 34,7% da diferença observada nos sintomas depressivos e a 46,3% da diferença na ideação suicida aos 16 anos.

O que esses números não permitem concluir?
Apesar da associação encontrada, alguns limites são importantes para interpretar corretamente os resultados:
- o estudo é observacional e não demonstra que solidão ou desejo de emagrecer provoquem depressão ou comportamento suicida;
- os percentuais descrevem aquele grupo estudado e não devem ser automaticamente aplicados a adolescentes de outros países e contextos culturais;
- desejar ser mais magra não equivale a ter um transtorno alimentar, embora preocupação intensa com peso e corpo possa exigir atenção;
- outros fatores também estão envolvidos, incluindo relações familiares, bullying, desenvolvimento puberal, atividade física e saúde mental anterior;
- as diferenças entre meninas e meninos não explicam casos individuais, já que adolescentes de qualquer sexo podem apresentar sofrimento emocional significativo.
Os autores utilizaram uma análise de mediação com ajuste para diversos possíveis fatores de confusão. Mesmo assim, modelos estatísticos não conseguem eliminar completamente todas as diferenças entre os participantes nem transformar uma associação em prova de causalidade.
Quais situações merecem atenção durante a adolescência?
Mudanças persistentes ou intensas no comportamento merecem ser observadas, principalmente quando começam a prejudicar escola, relações sociais ou atividades que antes faziam parte da rotina:
- isolamento social crescente ou sensação persistente de solidão;
- tristeza, irritabilidade ou perda de interesse por atividades habituais;
- preocupação intensa e constante com peso, alimentação ou aparência;
- restrição alimentar, compulsão ou outros sinais de possíveis transtornos alimentares;
- alterações importantes no sono, apetite ou rendimento escolar;
- automutilação, comentários sobre não querer viver ou pensamentos suicidas.
Um desses sinais isoladamente não confirma depressão ou outro transtorno. A frequência, a intensidade, o tempo de duração e o impacto na vida do adolescente são importantes para a avaliação.

Como interpretar esses sinais sem colocar a culpa no adolescente?
Os próprios autores destacam que solidão e insatisfação com o corpo não devem ser vistas apenas como características pessoais. Pressões sociais sobre aparência, relações com colegas e outras experiências do ambiente podem participar desse processo. Por isso, simplesmente dizer ao adolescente para “pensar diferente” ou emagrecer de forma saudável não responde ao problema identificado pelo estudo.
Quando tristeza, isolamento, preocupação com o corpo ou outros sintomas persistem ou interferem na rotina, é indicado procurar um pediatra, psicólogo ou psiquiatra. Diante de automutilação, pensamento suicida, plano de suicídio ou risco imediato de se machucar, é necessário buscar atendimento de urgência e manter o adolescente acompanhado.
Este conteúdo é apenas informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais de saúde.








