Um desejo intenso e repetido de mastigar gelo pode parecer apenas um hábito estranho, mas a ciência mostra que esse comportamento frequentemente indica algo mais sério. A chamada pagofagia, nome técnico para a compulsão por gelo, é uma das formas mais comuns da síndrome de pica e está fortemente associada à anemia por deficiência de ferro. Reconhecer esse sinal precoce pode ajudar a identificar uma carência nutricional antes que ela cause danos maiores ao organismo.
O que é a síndrome de pica
A pica é um transtorno caracterizado pelo consumo persistente de substâncias sem valor nutricional. Para ser considerado um transtorno, o comportamento precisa ocorrer por pelo menos um mês em uma pessoa que já compreende que aquele item não deveria ser ingerido. As formas mais conhecidas incluem a geofagia (comer terra ou argila), a amilofagia (consumir amido) e a pagofagia (mastigar gelo compulsivamente). O nome vem do latim para a pega, uma ave conhecida por levar objetos variados para o ninho.
A condição afeta principalmente gestantes, crianças e pessoas com deficiências nutricionais. Embora possa ter causas psicológicas em alguns casos, a grande maioria dos episódios está relacionada à falta de ferro no organismo.
A relação entre o gelo e a deficiência de ferro
A ciência ainda não compreende totalmente por que a falta de ferro desperta o desejo por substâncias não alimentares, mas algumas hipóteses ajudam a explicar o fenômeno. O ferro atua como cofator para enzimas que regulam a dopamina no cérebro, especialmente no hipocampo. Quando os níveis caem, alterações nessas vias podem modificar a percepção de fome e gerar impulsos alimentares atípicos.
Outra teoria sugere que mastigar gelo aumenta temporariamente o fluxo sanguíneo para o cérebro, compensando parcialmente a redução causada pela baixa quantidade de glóbulos vermelhos. Alguns pacientes relatam que o gelo alivia pequenas inflamações na boca, como estomatite e glossite, comuns na anemia ferropriva.

Estudo confirma a prevalência do comportamento
A associação entre pagofagia e anemia foi documentada em diversas pesquisas. Segundo a revisão “The Association Between Pica and Iron-Deficiency Anemia: A Scoping Review”, publicada na revista Cureus e indexada no PubMed, a identificação dos sintomas de pica permitiu o tratamento da deficiência de ferro e levou à resolução completa das queixas em todos os 20 artigos analisados. Outros estudos mostram que até 50% dos pacientes com anemia ferropriva podem apresentar alguma forma de pica, sendo a pagofagia a manifestação mais frequente.
Sinais de alerta que acompanham a vontade de comer gelo
A compulsão por gelo raramente aparece isolada. Quando está associada à anemia, outros sintomas costumam estar presentes e ajudam a levantar a suspeita:
- Fadiga persistente: cansaço que não melhora com repouso, mesmo após noites bem dormidas
- Palidez: pele, mucosas, interior dos olhos e unhas com coloração mais clara que o habitual
- Falta de ar aos esforços: sensação de cansaço desproporcional durante atividades simples
- Queda de cabelo e unhas quebradiças: sinais de que os tecidos não estão recebendo nutrientes adequados
- Dificuldade de concentração: o cérebro é um dos primeiros órgãos afetados pela baixa oxigenação

Quando procurar ajuda médica
Se você sente vontade frequente de mastigar gelo e reconhece algum dos sintomas descritos, é importante buscar avaliação médica. Um simples exame de sangue pode identificar a deficiência de ferro e orientar o tratamento adequado. A boa notícia é que, na maioria dos casos, a reposição do mineral resolve rapidamente a compulsão. Muitos pacientes relatam que o desejo por gelo desaparece entre cinco e oito dias após o início da suplementação, às vezes antes mesmo da normalização da hemoglobina.
Além do tratamento, é fundamental investigar a causa da perda de ferro, que pode incluir menstruação abundante, sangramento gastrointestinal ou dieta inadequada. Para mais informações sobre os sintomas e o tratamento da anemia ferropriva, consulte o Tua Saúde.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. Diante de sintomas persistentes, procure um profissional de saúde.









