Deitar, fechar os olhos e o sono simplesmente não vir. Essa experiência, tão comum quanto frustrante, afeta uma parcela enorme da população brasileira. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgados pelo Ministério da Saúde, cerca de 72% dos brasileiros relatam algum tipo de distúrbio do sono. Mas a insônia vai além do incômodo noturno — ela compromete o humor, a memória, a imunidade e até o coração. Entender o que está por trás dela é o primeiro passo para recuperar noites de qualidade.
O que caracteriza a insônia e quem ela mais afeta
A insônia é definida como a insatisfação com a qualidade ou a quantidade do sono, mesmo quando há tempo e condições adequadas para dormir. Para ser considerada crônica, as dificuldades precisam ocorrer pelo menos três vezes por semana durante três meses ou mais. Os sintomas diurnos — cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda no desempenho — são parte do diagnóstico, não apenas consequências.
O Consenso Brasileiro de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em Adultos (2023), elaborado pela Associação Brasileira do Sono (ABS), aponta os grupos com maior prevalência da condição:
- Mulheres, especialmente na meia-idade e após a menopausa
- Idosos, pela alteração natural dos ciclos do sono
- Trabalhadores em turno noturno ou com horários irregulares
- Pessoas com doenças crônicas físicas ou psiquiátricas
- Indivíduos de baixa renda ou que vivem sozinhos
Principais causas da insônia
A insônia raramente tem uma única origem. O modelo mais utilizado pelos especialistas divide os fatores em três grupos: predisponentes (características individuais, como genética e personalidade), precipitantes (eventos que desencadeiam o problema, como estresse ou luto) e perpetuadores (hábitos que mantêm a insônia mesmo depois de o gatilho ter passado). Entre as causas mais comuns estão:
- Ansiedade e estresse crônico, que mantêm o sistema nervoso em estado de alerta
- Depressão, que altera os padrões de sono de forma profunda
- Doenças físicas, como apneia do sono, refluxo, dor crônica e hipertireoidismo
- Uso de substâncias, incluindo cafeína, álcool e certos medicamentos
- Hábitos inadequados, como uso de telas à noite, horários irregulares e excesso de tempo na cama

O que a ciência diz sobre o tratamento
Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP), com 227 voluntários diagnosticados com insônia, comparou duas abordagens de psicoterapia ao longo de seis semanas. Os resultados, publicados no Journal of Consulting and Clinical Psychology, mostraram que a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) promoveu melhoras mais rápidas, enquanto a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) apresentou efeitos mais duradouros após alguns meses — mesmo sem orientações específicas sobre o sono. O trabalho foi premiado no Congresso da Association for Contextual Behavioral Science (ACBS) em 2023 e pela American Psychological Association (APA) em 2024.
Você pode saber mais sobre esse estudo no Jornal da USP.
Tratamentos disponíveis: do comportamental ao farmacológico
O Consenso Brasileiro de Insônia (2023) é claro: a TCC-I é a primeira linha de tratamento para insônia sem comorbidades. O uso de medicamentos deve ser adjuvante e de curto prazo. Veja como cada abordagem funciona na prática:
- TCC-I: trabalha crenças disfuncionais sobre o sono, restrição de tempo na cama e higiene do sono — com resultados que duram até 24 meses após o tratamento
- Medicamentos sedativos (benzodiazepínicos e drogas Z): eficazes no curto prazo, mas com risco de dependência — uso limitado a menos de quatro semanas
- Antidepressivos sedativos em baixa dose: agora reconhecidos como alternativa para insônia crônica, conforme atualização das diretrizes em 2024
- Agonistas de melatonina: indicados principalmente para idosos e crianças com autismo; sem evidências sólidas para adultos jovens saudáveis
Quando procurar ajuda e o que esperar do diagnóstico
A insônia persistente merece avaliação médica — especialmente quando os sintomas diurnos já afetam a vida profissional, os relacionamentos ou a saúde em geral. O especialista em medicina do sono pode solicitar exames como a polissonografia para identificar causas associadas, como apneia. Neurologia, psiquiatria, psicologia e pneumologia são especialidades que costumam atuar nesse cuidado. Quanto antes o tratamento for iniciado, menores as chances de a insônia se tornar crônica e de desenvolver complicações como depressão ou doenças cardiovasculares.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Se você apresenta dificuldades persistentes para dormir, consulte um médico especialista em medicina do sono.









