A flebotomia consiste na retirada de sangue do organismo através de punção venosa, procedimento que pode ter finalidade diagnóstica para realização de exames ou terapêutica para tratamento de condições específicas. De acordo com o estudo (Clinical applications of therapeutic phlebotomy) publicado pelo Journal of Blood Medicine, a flebotomia terapêutica representa o tratamento preferencial para distúrbios sanguíneos nos quais a remoção de células vermelhas ou ferro sérico constitui o método mais eficiente para controlar sintomas e prevenir complicações.
O que é flebotomia terapêutica?
A flebotomia terapêutica difere da coleta diagnóstica comum por envolver a retirada de volumes maiores de sangue com objetivo curativo. Este procedimento remove células vermelhas em excesso, células anormais ou ferro acumulado no organismo, aliviando sintomas e prevenindo danos aos órgãos. Cada unidade de sangue removida, aproximadamente 500 ml, contém entre 200 e 250 mg de ferro, dependendo dos níveis de hemoglobina.
O procedimento é realizado de forma semelhante à doação de sangue, geralmente em consultórios médicos, bancos de sangue ou hospitais sob supervisão profissional. A frequência das sessões varia conforme a condição tratada, podendo ser semanal, quinzenal ou mensal. O monitoramento cuidadoso através de exames laboratoriais garante a segurança e eficácia do tratamento ao longo do tempo.

Quando a flebotomia terapêutica é indicada?
Atualmente, a flebotomia terapêutica possui três indicações principais aprovadas pela medicina moderna. Segundo a revisão (Current applications of therapeutic phlebotomy), publicada pela Blood Transfus, as indicações primárias incluem hemocromatose hereditária, policitemia vera e porfiria cutânea tarda, condições nas quais o procedimento demonstra eficácia e segurança comprovadas. Outras situações também podem beneficiar-se do tratamento, embora com evidências menos robustas.
A hemocromatose hereditária, uma das desordens genéticas mais comuns entre pessoas de ascendência europeia, provoca acúmulo excessivo de ferro que pode danificar fígado, coração e pâncreas. Na policitemia vera, distúrbio mieloproliferativo que aumenta a produção de células vermelhas, a flebotomia reduz o hematócrito e diminui significativamente o risco de eventos trombóticos cardiovasculares. A porfiria cutânea tarda também responde positivamente à redução dos estoques de ferro.
Principais indicações clínicas para flebotomia terapêutica
Como é realizada a flebotomia terapêutica?
O procedimento segue protocolo rigoroso para garantir segurança e eficácia. O paciente é posicionado confortavelmente sentado ou deitado, e o profissional identifica uma veia adequada, geralmente na região do antebraço ou fossa antecubital. A veia cubital mediana, localizada entre músculos, costuma ser a escolha preferencial por oferecer menor risco de complicações e causar menos desconforto.
Após aplicação de torniquete e assepsia da pele com solução antisséptica, a agulha é inserida na veia com o bisel voltado para cima, em ângulo de 15 a 30 graus. O volume removido varia conforme fatores individuais como idade, peso, saúde geral e tolerância do paciente. Meia unidade de 250 ml pode ser retirada em pessoas com massa corporal pequena, anemia ou doença cardíaca ou pulmonar, enquanto pacientes saudáveis toleram remoção de 500 ml por sessão.
Etapas do procedimento:
- Avaliação pré-procedimento: verificação de hemoglobina e sinais vitais antes de cada sessão
- Posicionamento do paciente: sentado ou deitado em posição confortável
- Aplicação do torniquete: cerca de 10 cm acima do local escolhido para punção
- Seleção da veia: escolha de veia visível, reta e bem apoiada pelo tecido adjacente
- Assepsia da pele: limpeza com solução antisséptica para prevenir infecções
- Punção venosa: inserção da agulha com técnica estéril apropriada
- Coleta do sangue: remoção do volume prescrito conforme tolerância individual
- Compressão do local: pressão direta por 5 a 10 minutos após remoção da agulha
- Monitoramento pós-procedimento: observação de sinais vitais e bem-estar geral
- Orientações de cuidados: hidratação adequada e repouso nas horas seguintes

Quais são os riscos e complicações da flebotomia?
Embora a flebotomia seja geralmente segura, complicações podem ocorrer e variam de leves a graves. Estudos científicos (Complications occurring from diagnostic venipuncture), publicado pela The Journal of Family Practice, demonstram que complicações menores como hematomas e equimoses afetam aproximadamente 12,3% dos procedimentos, sendo a reação mais comum. Complicações sérias, incluindo diaforese com hipotensão, síncope e lesões nervosas, ocorrem em cerca de 3,4% dos casos, exigindo conhecimento adequado para prevenção e tratamento.
As reações vasovagais representam complicação relativamente frequente, manifestando-se através de hipotensão, palidez e possível desmaio. Lesões nervosas, embora raras, merecem atenção especial por poderem causar disfunção motora ou sensorial permanente em braços e mãos. A seleção cuidadosa da veia e técnica apropriada de punção minimizam significativamente esses riscos.
Quando procurar orientação médica?
A flebotomia terapêutica deve ser sempre prescrita e monitorada por profissional médico qualificado. Pacientes com condições cardíacas graves, anemia significativa ou peso corporal muito baixo requerem avaliação especial antes de iniciar o tratamento. O monitoramento através de níveis séricos de ferritina e hemoglobina garante que o procedimento seja eficaz sem causar deficiência de ferro ou anemia.
Sintomas como dor intensa durante o procedimento, tontura persistente, sangramento prolongado no local da punção ou sinais de infecção como vermelhidão, calor e secreção devem ser comunicados imediatamente ao médico. O objetivo terapêutico varia conforme a condição tratada, mas geralmente visa manter ferritina entre 50 e 100 ng/ml para hemocromatose e hematócrito abaixo de 45% para policitemia vera. Sempre siga rigorosamente as orientações médicas quanto à frequência das sessões, preparo adequado e cuidados pós-procedimento para garantir segurança e maximizar os benefícios do tratamento.









